sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Sobre Chile, capitalismo e China

Por trás das justas homenagens aos esforços de resgate chilenos, é preciso pensar sobre a natureza econômica de um país cujo trabalho nas minas está no centro da arrecadação nacional. A exploração de cobre - e sucessiva exportação - responde por 40% da renda nacional. Não é à toa que este não foi o primeiro acidente envolvendo mineiros.

Desde 2000, 34 trabalhadores morreram todos os anos durante o processo de mineração. O ponto alto deste histórico de mortes aconteceu no ano de 2008, quando 43 pessoas deram suas vidas durante o trabalho. A exploração do cobre sustenta o Chile há muitos anos.

Um dos artigos mais interessantes que li nesses últimos dias é de Daniel Henninger, do Wall Street Journal. Ele diz acreditar que a operação de resgate é mais um exemplo das vantagens do capitalismo, argumentando que as diversas empresas privadas que ofereceram peças e equipamentos só o puderam fazer porque desenvolveram tecnologia de alto desempenho - o que, segundo ele, só é possível num ambiente competitivo.

É uma verdade. Ou melhor, é apenas uma parte da verdade, uma de suas muitas faces. Por exemplo, vale questionar se os mineiros teriam sido submetidos a péssimas condições de trabalho se o livre-mercado não estivesse em busca de maiores quantidades de cobre vendidas a preços mais baixos. A mina São José só foi reaberta para exploração - mesmo sem oferecer segurança apropriada aos empregados - por conta da pressão do governo chinês.

Ou seja, o mesmo mercado global que conseguiu unir parceiros internacionais privados durante o salvamento de certa forma foi o responsável por colocá-los debaixo da terra inicialmente. É preciso levar todos esses aspectos em consideração. Até porque, não acho que o episódio sirva como argumento definitivo e maniqueísta para qualquer bandeira ideológica. Particularmente, considero que a grande lição de tudo isso é ressaltar a capacidade solidária humana.

Sobre os argumentos expostos no Wall Street Journal, acho válido também discutir o atendimento médico oferecido aos mineiros após o resgate. No "mundo ideal do livre mercado", o governo chileno não teria arcado com as despesas hospitalares. Ou melhor, sequer existiriam hospitais públicos. Que tipo de atendimento os mineiros teriam recebido, considerando que, em média, seus salários não ultrapassam os 1,6 mil dólares?

Aliás, esta é uma questão que está na ordem do dia nos EUA, com os movimentos mais conservadores rotulando o presidente Obama de "socialista" por sugerir a criação de um plano de saúde popular capaz de cobrir as despesas médicas da maioria da população americana.

Talvez este episódio pudesse servir para incrementar esta discussão entre os americanos, mas acho pouco provável. Curiosamente, este mesmo livre-mercado comemorado por Henninger pode acabar ressaltando ainda mais as discutíveis escolhas recentes chinesas (maiores parceiros comerciais do Chile. A China responde por 16,46% das exportações chilenas).

Se internamente Beijing restringe a prática, internacionalmente parece ser a maior entusiasta do capitalismo sem qualquer fundamento ético: por exemplo, além de ter sido ator importante no processo de reabertura da mina São José, continua a vender armamento para os radicais islâmicos de Darfur, no Sudão, além de apoiar com equipamentos os projetos nucleares de Coreia do Norte e Irã. Talvez, a China acabe se tornando a principal prejudicada quando o mundo deixar de se maravilhar e decidir estabelecer limites para a sociedade do livre-mercado.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Os interesses de Ahmadinejad no Líbano

Mahmoud Ahmadinejad está no Líbano. Sua visita ao sul do país permitirá que esteja ao lado de Israel. Mais perto do que nunca, capaz inclusive de assistir à movimentação no lado israelense da fronteira, pretende lembrar a todos os envolvidos no grande conflito do Oriente Médio que o Irã é um ator a ser considerado. A visita do presidente iraniano à região está longe de marcar uma posição consensual num país marcado por profundas divisões internas.

"Ahmadinejad seria bem-vindo se pudesse se comportar como o presidente do Irã, não como o presidente de uma parte do Líbano", diz à BBC Samir Geagea, líder do partido Forças Cristãs Libanesas.

Na segunda-feira, escrevi que a visita contemplava o Hezbollah, uma vez que receber seu maior patrocinador é uma forma de voltar o discurso contra Israel, desviando o foco das investigações da ONU que pretendem esclarecer as circunstâncias em torno do assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, em 2005. Não se trata somente disso, obviamente.

É do maior interesse iraniano a renovação da imagem de Ahmadinejad como ator regional e, principalmente, opositor à retomada das negociações de paz entre israelenses e palestinos. Como muitos antes dele, o presidente se pretende o maior defensor da causa palestina, alguém com força suficiente para não aceitar os “termos impostos por Israel e EUA”. A causa palestina é a carta na manga mais usada por pretendentes a líderes regionais do mundo islâmico. E agora não é diferente.

Diferente mesmo é o fato de o cenário estar muito favorável a Ahmadinejad. Com a Autoridade Palestina enfraquecida por conta dos confrontos com o Hamas, o presidente Mahmoud Abbas não pode garantir qualquer compromisso que assumir com Israel. É este o ponto fraco que o iraniano não se cansa de explorar. A ideia que tenta emplacar é que somente ele - Ahmadinejad - pode causar medo ao Ocidente graças a seu programa nuclear. Não deixa de ser verdade. Mas o presidente iraniano não está nem aí para o processo de paz ou os palestinos. Ele se importa apenas com seu projeto pessoal de poder.

O seu aparecimento ao lado da fronteira israelense é mais uma jogada de sua ampla estratégia. Ainda mais agora, com o processo de paz emperrado. Como o diálogo está teoricamente parado – escrevo sobre isso posteriormente, já que notícias recentes mostram que há muitas movimentações em curso –, as pedras que o presidente do Irã diz que irá jogar contra Israel miram também outro alvo: a crescente frustração entre os palestinos. Ahmadinejad aproveita esta oportunidade para lembrar o mundo árabe e islâmico que ele representa a única solução. Mesmo que as opções que defenda representem o rompimento total.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O Líbano a caminho do colapso

A semana pode marcar mais uma movimentação importante no Oriente Médio. Na próxima quarta e quinta-feira, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, visitará o Líbano. Se a intenção de "passear" pelo sul do país se confirmar, Ahmadinejad estará ao lado da fronteira norte de Israel – especula-se, inclusive, que repetirá a prática local de jogar pedras em direção à fronteira israelense. Mais do que simplesmente reafirmar a imagem de maior contraponto regional ao Ocidente, a visita também pode influenciar decisivamente a própria política interna libanesa, que passa por momento decisivo.
A ONU estabeleceu um tribunal especial para investigar o assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, em 2005. A iminente publicação dos resultados promete abalar as estruturas do país, já que deve apontar o envolvimento do Hezbollah no crime. Se isso de fato acontecer, ninguém sabe ao certo como o grupo radical xiita pode reagir. Principalmente porque sua reputação fica abalada. Como explicar o envolvimento da milícia sem deixar óbvio seu projeto de poder? Como manter o véu patriótico incansavelmente repetido nos discursos de seu líder, o xeque Hassan Nasrallah?
É claro que existe um grande temor quanto às consequências da divulgação dos resultados desta ampla investigação. Tanto que a exposição das descobertas tem sido constantemente adiada. Se ficar claro que o Hezbollah está por trás da morte de Hariri – como dão conta informações preliminares – o Líbano pode entrar em colapso mais uma vez. Os partidários do atual primeiro-ministro, Saad Hariri (filho de Rafik), devem acusar a milícia xiita de traição à pátria. Na prática, o grupo já representa um Estado dentro do Estado, com seu próprio canal de televisão, instituições, hospitais, escolas e forças armadas.
Antecipando-se ao que parece inevitável, a milícia xiita tratou de convidar seu maior patrocinador para uma visita. Com a temperatura em elevação, o deputado do Hezbollah Nawwaf al-Moussawi declarou que qualquer libanês que aceite os resultados do inquérito da ONU será assassinado sob a acusação de colaboração com Israel e EUA.
A atual estratégia do grupo segue passos óbvios: tentar deslegitimar o tribunal, além de procurar tornar Mahmoud Ahmadinejad uma espécie de justiceiro que busca proteger os libaneses do poderio militar israelense. É por isso que, no último final de semana, o xeque Nasrallah declarou que o dinheiro recebido pelo Hezbollah dos iranianos foi empregado na reconstrução das casas destruídas por Israel durante a guerra de 2006.
A visita de Ahmadinejad é uma tentativa desesperada de mudar o foco. O Hezbollah corre contra o tempo para angariar o máximo de vozes ao velho discurso de enfrentamento com Israel. Junto com o presidente iraniano, a milícia xiita procura deixar o mais claro possível que qualquer voz acusatória, no fundo, representa um apoio aos israelenses. Este tipo de argumento simplista é bastante comum a radicais de todas as bandeiras.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Poço sem fundo no Afeganistão

Como complemento à análise desta quinta, os fatos parecem contribuir para a tese fatalista. Quanto mais tempo EUA e OTAN permanecerem no Afeganistão, pior a situação deve ficar. Assim, a pressão que Washington pode passar a sofrer para negociar com o Talibã tende a aumentar, já que esta não é apenas o que se poderia considerar a única saída digna, mas a única saída.

Quando escrevi que negociar com os talibãs soava contraditório, o fiz baseado no próprio conceito de radicalismo. Se al-Qaeda e o Talibã são radicais – e, de fato, o são e ambos os grupos têm enorme orgulho disso –, negociar seria uma perda de tempo, uma vez que, conceitualmente, nenhuma das organizações estaria disposta a ceder em qualquer uma de suas reivindicações. É preciso também deixar claro que discutir termos ou acordos com a al-Qaeda é absolutamente improvável e impensável. Nenhum ocupante da Casa Branca irá aceitar debater com os autores do maior atentado cometido em solo americano.

O Talibã não é a al-Qaeda, mas se propõe fundamentalista da mesma forma. Vale dizer também que o termo “fundamentalismo” expressa uma visão ocidental sobre as práticas de tais grupos. Ou seja, radicais do Talibã ou da al-Qaeda não condenam o modo de vida ou os valores praticados no Ocidente porque se pretendem fundamentalistas, mas porque, para eles, a maneira como interpretam e põem em prática as leis islâmicas é a única aceitável. Mesmo que atirar ácido no rosto de mulheres que ousam estudar seja cumprir com os mandamentos – muito embora o islamismo condene este tipo de prática.

Sobre a situação política afegã, a tendência é de retrocesso dos ganhos alcançados pelas tropas ocidentais. Até em grandes cidades onde se imaginava que poderia iniciar o processo de construção de um Estado, o projeto tem se esfacelado – casos de Jalalabad e Cabul. A intensidade dos atentados aumenta diariamente. Hoje, um desses ataques é de grande simbolismo por ter vitimado Mohammad Omar (foto), governador da província de Kunduz – região norte do país e uma das áreas mais afetadas pela atuação do Talibã.

Quanto mais a coalizão ocidental permanecer no Afeganistão, mais vai ter a perder. E com os radicais muito motivados pelas vitórias recentes, mais difíceis serão as negociações que decretarão o fim da empreitada de EUA e OTAN. Este é um poço sem fundo em número de vidas perdidas, dinheiro empregado e prestígio político.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Afeganistão, 7 de outubro de 2010

Em 7 de outubro de 2001, tropas dos EUA e da OTAN invadiram o Afeganistão. Teoricamente, a missão era simplesmente derrubar o governo Talibã. O objetivo foi alcançado naquele mesmo ano, restando um enorme vazio e muitas dúvidas. Se os aliados deixassem o território, os radicais poderiam retornar, e fatalmente conseguiriam retomar o poder. O esforço de guerra teria sido em vão, e a resposta aos atentados de 11 de Setembro não seria apropriada. Não custa dizer que a captura de Osama Bin Laden parecia apenas questão de tempo.

Por conta de tantas questões, EUA e OTAN se dispersaram em meio à guerra. Encontrar o terrorista que admitiu os ataques às Torres Gêmeas e ao Pentágono se transformou em tarefa ingrata. Definitivamente, no entanto, os talibãs não poderiam voltar ao poder e a al-Qaeda não encontraria mais abrigo seguro no Afeganistão.

As mudanças de circunstância determinaram também um novo olhar sobre o território. Era preciso transformar o vasto “país” num Estado de verdade. Era preciso inventar um governo, instituições, fazer eleições. Como em teoria tudo é possível, o que existe hoje é somente um resultado prático: 2.131 soldados ocidentais morreram, o mesmo aconteceu com incontável número de afegãos. Até agora, foram gastos 350 bilhões de dólares – em meio a tudo isso, a crise econômica assolou os EUA com toda a força, tornando difícil justificar tamanho gasto.

Para completar, era preciso contar com o nada confiável vizinho Paquistão – um aliado americano bastante questionável. Mesmo a pontaria das tropas aliadas tem sido falha, como mostra o bombardeio do último dia 30 de setembro que matou três soldados das forças regulares paquistanesas confundidos com membros do Talibã.

Depois de incidentes com este – e já foram muitos desde 2001 – o cenário está longe do planejado: além de não conseguir derrotar os radicais, a instabilidade no Afeganistão pode contribuir para o pior dos mundos: o caos instalado no Paquistão que daria fim ao governo – podendo, inclusive, tornar realidade a perspectiva de ascensão dos radicais paquistaneses. Ou do próprio Talibã, atualmente instalado, vejam só, em Quetta, no Paquistão. Sendo bastante repetitivo, acho válido mencionar que Islamabad dispõe de capacidade nuclear.

Ao entrar em seu décimo ano, a empreitada no Afeganistão parece contar apenas com uma saída: o estabelecimento de uma solução negociada com os radicais talibãs – o que é altamente contraditório, sob todos os pontos de vista.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

As perspectivas internacionais brasileiras não devem mudar

Uma notícia talvez surpreendente, mas que serve para mostrar o momento diferente pelo qual passa o Brasil: no próximo dia 8 de outubro acontece o encontro anual do FMI. Em outros tempos, a reunião causaria grande comoção entre as autoridades brasileiras. Não é o caso neste momento. Pode parecer pouco, mas a situação ilustra uma grande mudança de posicionamento. Este é um aspecto internacional positivo que será herdado pelo próximo presidente, seja ele quem for.

Acho válido traçar um rápido panorama externo do próximo mandato. Se Dilma de fato vencer as eleições, o Itamaraty (foto) deve manter as estratégias atuais. E isso pode significar não apenas a manutenção do pragmatismo independente, mas também um aprofundamento das divergências de posicionamento com os EUA. Aliados que se opõem a Washington em uma série de questões, como Irã e Turquia, por exemplo, acabaram ganhando prestígio em Brasília porque servem de trampolim para o projeto internacional brasileiro.

Como costumo escrever, a geopolítica é bastante complexa e coloca o Brasil em situação favorável, o que pode levar a Casa Branca a minimizar as críticas ao Itamaraty em nome de algumas características importantes; o Brasil tem se firmado como líder regional, mesmo a contragosto de competidores importantes – casos de México e Argentina; e um ponto que tem sido completamente esquecido é a dedicação local aos combustíveis alternativos.

Este é um ponto que tende a se tornar ainda mais importante a partir de agora para a administração Obama. O investimento na área não é apenas uma bandeira teórica que reafirma a diferença deste presidente americano em relação ao antecessor e ao Partido Republicano. Hoje esta é uma questão urgente, como mostra reportagem do New York Times.

“Combustível fóssil é a importação número um para o Afeganistão. Para proteger este carregamento, afastamos as tropas de seus principais objetivos no território: lutar ou se dedicar à população local”, diz Ray Mabus, secretário da Marinha e ex-embaixador na Arábia Saudita.

Ou seja, como maior produtor de etanol no mundo, as perspectivas de negócios brasileiros são muito animadoras. Ainda mais se levarmos em conta que a presença americana no Afeganistão não deve ser encerrada em curto prazo. Se de fato a ideia do Itamaraty é exercer práticas externas independentes e pragmáticas, perceber esta grande oportunidade pode ser uma forma de aplicar o discurso ao mundo real. Sem a menor dúvida, aliados como o Irã, por exemplo, não aprovariam tal interação entre Brasília e Washington.

Uma análise criativa feita pelo jornalista Vinod Sreeharsha aposta num governo de perfil internacional menos ativo, se Dilma for eleita.

“Enquanto o carisma de Lula é difícil de ser batido, Rousseff é considerada uma intelectual disciplinada. Assim, é pouco provável que ela empenhe esforços em ousadas iniciativa na área de política externa. Isso pode ajudá-la a se relacionar com Obama”, escreve.

Apesar de considerar esta visão interessante por seu pioneirismo, não acredito que Dilma represente qualquer mudança nas diretrizes internacionais brasileiras. Até porque os maiores estrategistas do governo atual devem permanecer em seus cargos, casos de Marco Aurélio Garcia e Celso Amorim – este último o ministro das Relações Exteriores que ocupa a pasta há mais tempo em toda a história da república.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A política internacional no caminho das eleições brasileiras

No dia seguinte às eleições, aproveito para fazer um mea-culpa: ao contrário do que imaginava, as decisões externas do governo Lula não tiveram qualquer influência nas discussões até este momento. Se Dilma já tivesse sido eleita, esta seria uma verdade absoluta. No entanto, talvez, em novos encontros entre os dois primeiros colocados, a questão acabe aparecendo.
 

Correndo o risco de errar novamente, acho que esta é uma perspectiva real. Primeiro por conta da natureza da campanha até agora. Se os candidatos trocaram algumas farpas, os assessores políticos e publicitários tentaram ao máximo evitar um clima de confronto direto. Por mais que muita gente goste do vale-tudo, pesquisas refletem a opinião do eleitorado de que o período de debates deve ser aproveitado para confrontar ideias - acho que existe uma certa vergonha dos entrevistados em admitir que rusgas mais violentas costumam sarisfazer bastante.

 

De qualquer maneira, o clima um tanto harmonioso do primeiro turno deve ceder lugar ao embate direto. Ainda mais porque Dilma pretende se colocar como a antítese de Serra. O representante do PSDB, no entanto, tem tentado se posicionar como o candidato melhor preparado para o cargo, mas que ao mesmo tempo é capaz de reconhecer os avanços da atual administração. Daqui para a frente, com posicionamentos mais claros e obrigados a partir para o tudo ou nada - e isso vale mais para Serra, que precisaria, em tese, de todos os votos de Marina para se eleger -, a tendência é que o confronto aconteça.

 

E aí acredito que Serra possa colocar sobre a mesa as decisões internacionais que o Brasil tem tomado nos últimos oito anos. Este é um ponto que polariza as duas candidaturas. Acho interessante ilutrar o caso com o resultado da votação de brasileiros no exterior: brasileiros que vivem em Israel elegeram Serra, de acordo com dados da embaixada em Tel-Aviv; os que vivem nos territórios palestinos deram a vitória a Dilma, segundo informações da embaixada em Ramallah. Apesar de a amostra ser insignificante diante da massa de eleitores brasileiros, é curioso notar como há polarização em relação ao posicionamento para aquela região a partir das atitudes brasileiras.

Mas é preciso deixar claro: a política internacional pode ser apenas um dentre os muitos pontos de discussão neste segundo turno. Até porque a grande maioria das pessoas ou não se importa com a questão ou não faz sua escolha sob este ponto de vista.


Mudando um pouco de assunto, percebi que algumas publicações internacionais conseguiram enxergar as nuances das eleições brasileiras. No caso do britânico Guardian, por exemplo, a matéria principal cita as especulações sobre o posicionamento de Dilma em relação ao aborto e informa que este foi um fator importante para a ascensão de Marina. Este tipo de jogo acabou por afastar a candidata do PT de uma fatia importante do eleitorado: os evangélicos.


Ao contrário do que muita gente imagina, o voto no PV não se restringiu a uma massa crítica às políticas de sustentabilidade - um voto de "vanguarda". A boataria em torno das opiniões de Dilma sobre uma questão que ainda é crítica para uma parcela considerável da população brasileira acabou por levar o pleito para o segundo turno. É impressionante como, às vezes, publicações estrangeiras conseguem detectar as estratégias - muitas vezes, sujas - da política nacional.