terça-feira, 10 de maio de 2011

Jogo de interesses internacionais no Paquistão

Curiosamente, a morte de Bin Laden deixou muito evidente a importância do Paquistão. E não apenas aos EUA, como poderia soar óbvio. Há muitos fatores que constituem esta centralidade: a posição estratégica do país, sua vulnerabilidade simultânea à posse de armamento nuclear e suas reservas naturais.

Por conta disso, há gente demais interessada no que vai acontecer daqui para frente. E com razão. Para compreender a realidade paquistanesa, é preciso, antes de tudo, destacar o peso do exército nacional. Desde os anos 1970, as forças armadas não são mero aparato de defesa, mas também atuam como guardiões do Estado. Não se pode chamar isso de confusão, mas de forma distinta de encarar os militares. Há uma simbiose entre eles , os cidadãos e o próprio governo. O exército assegura a prevalência do islã – fundamental à identidade nacional –, defende o Paquistão diante das ameaças da Índia (e todo o histórico de batalhas entre os países) e muitas vezes assume as rédeas do país.

O que acontece agora é muito complicado. Se para o Ocidente houve falhas dos serviços de inteligência e do exército quando nenhum dos aparatos de segurança identificou a presença de Bin Laden nas proximidades de Islamabad, os paquistaneses não compreendem as críticas pontualmente. Para eles, há um questionamento internacional da instituição mais importante do país que resume boa parte do sentimento e expectativas nacionais. E esta certamente não é uma discussão simples. Por isso o governo paquistanês tenta “democratizar” o erro, afirmando que o desconhecimento quanto ao paradeiro do terrorista mais procurado do mundo reflete um problema mundial, não exclusivo do Paquistão.

Ao mesmo tempo, o foco sobre Islamabad acende alertas regionais importantes. A China, por exemplo, teme que eventual decadência do Estado paquistanês e ascensão dos fundamentalistas ameacem as rotas energéticas da Ásia Central. A Rússia está aflita pelo mesmo motivo, mas também porque considera a região ainda sua área de influência (nada mais típico dos egos superinflados de Medvedev e Putin). Curiosamente, esta percepção russa acabou por colocar Moscou ao lado da Otan (e todo mundo sabe como o país se contrapõe à organização ainda hoje) por temer que a retirada das tropas no Afeganistão transforme novamente a região num caos de oportunidade para o recrudescimento do fundamentalismo.

Enquanto isso, os EUA têm motivos reais de preocupação. Washington pode pressionar o Paquistão. Mas somente até certo ponto. Não há qualquer alternativa viável às rotas paquistanesas que fornecem suprimentos aos soldados estacionados no Afeganistão. Houve tantos gestos, diretrizes, ordens e movimentações nos últimos dez anos por conta da guerra ao terror que todos os países se tornaram diretamente engajados e articulados a interesses mútuos. Quem poderia imaginar que a Rússia estaria do mesmo lado da Otan? Ou que China e EUA partilhassem a mesma preocupação sobre o futuro do Paquistão?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Paquistão: a pedra no sapato de Obama

Bin Laden é história. No entanto, as consequências de sua morte ainda devem influenciar decisões e o cenário mundial por algum tempo. Certamente, o Paquistão é o ator regional mais exposto devido ao episódio de acobertamento do terrorista em seu território. De uma maneira ou outra, as autoridades paquistanesas toleraram a presença do líder da al-Qaeda. Por isso, há possibilidade não apenas de movimentações dos outros atores regionais, mas também de eventual pressão americana sobre o governo de Islamabad.

Em períodos eleitorais, as demandas populares se tornam ainda mais urgentes. Nos EUA, a situação fica mais complicada: de fato, o país agora vive algum relaxamento, mas também o início da campanha presidencial. Com a morte de Bin Laden neste momento estratégico – acrescido do potencial de comoção pelos dez anos dos atentados mais graves cometidos em solo americano -, restam poucas alternativas ao partido Republicano para contestar a atuação de Obama na guerra contra o terrorismo. E afirmo isso porque pesquisa do instituto Gallup mostra que 54% da população acreditam que agora o país está mais seguro em relação a ameaças terroristas. Há muito campo de insatisfação interna nos EUA, mas não seria prudente atacar a política externa do atual presidente neste momento específico.

Uma alternativa viável de contestar a atuação internacional de Obama é mirar no Paquistão. E, sem a menor dúvida, há muitos republicanos dispostos a questionar a ajuda de 18 bilhões de dólares destinada por Washington a Islamabad desde 2001. E aí não importa que o mandato de Bush tenha se estendido até 2008. O que vale é a percepção, uma vez que ela é determinante na escolha dos eleitores. E por mais equivocada que seja, a equação é bastante simplória: a Casa Branca transfere dinheiro – muito dinheiro – a um governo que acobertou Osama Bin Laden. E não é preciso dizer como este discurso é poderoso, principalmente num período de austeridade econômica.
Enquanto a América perde dinheiro, Obama entrega o resultado do trabalho americano – os impostos – a Estados falidos. É claro que o Paquistão é o país que mais prendeu terroristas e membros do Talibã. É também o lugar onde mais vidas se perderam devido ao terrorismo. Mas certamente o partido Republicano irá omitir tais informações durante a campanha. Principalmente porque contestar a maneira como o governo americano gasta os impostos atende muito bem ao discurso do movimento político mais conservador dos EUA: o Tea Party. Se a barulhenta ala Republicana impede o presidente americano de estender a cobertura de saúde aos cidadãos do país, o que dirá do repasse de recursos a um lugar distante e ignorado pela maior parte da população como o Paquistão?

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Al-Qaeda admite morte de Bin Laden e opta por rumo alternativo

Numa semana repleta de acontecimentos que mudam cenários importantes, devo confessar que minhas capacidades de previsão do futuro foram postas à prova. E o resultado deste teste involuntário é ambíguo. Acertei em 50% dos casos. Como interpretar esses números segue o princípio do copo cheio e do copo vazio – ou seja, cada um enxerga como quiser –, acredito que acertei onde deveria ter acertado e errei no que poderia errar. E começo com meu palpite equivocado: ao contrário do que escrevi, a al-Qaeda admitiu a morte de Osama Bin Laden.

E não há nenhum problema quanto a isso. Até porque, devo reafirmar o que é óbvio, não escrevo esses textos a partir de chutes, mas de tendências, comportamentos, análises. Seria natural que a rede terrorista insistisse em teorias conspiratórias para não acusar o golpe. Mas preferiu seguir outro caminho igualmente possível: o do martírio. Quer elevar a moral de simpatizantes e membros incentivando-os a vingar a morte de Bin Laden. Nada improvável.

E aí devo dizer que esta leitura e a outra parte do comunicado do grupo – talvez até mais importante que simplesmente admitir o sucesso da operação americana no Paquistão – apresentam mais um aspecto que tenho ressaltado nesses dias: a tendência de a al-Qaeda mudar para continuar.

“Os Estados Unidos e seu povo jamais gozarão da segurança enquanto nosso povo na Palestina não usufruir dela”, diz a declaração. Pronto, aí está. A rede terrorista muda seu discurso a partir da leitura correta do novo cenário geopolítico regional. Simplesmente, atacar americanos enquanto as manifestações populares nos países árabes deixam claro que os cidadãos estão mais preocupados com assuntos domésticos não mobiliza mais. No entanto, se a luta da al-Qaeda passa a explicitamente evidenciar um vínculo com a questão palestina, existe uma chance de o grupo conseguir de volta parte do prestígio perdido, da relevância política deixada de lado nesses tempos.

A atitude da al-Qaeda foi relativamente simples: transformar a questão palestina – até então apenas uma das muitas reivindicações na lista de acusações ao Ocidente – em protagonista ideológica do grupo. De semimarginalizado, o conflito entre israelenses e palestinos passou a ponto central da agenda. Ao longo de toda a semana, manifestei a possibilidade de que isso poderia acontecer. Agora, a al-Qaeda confirma esta hipótese.

E, neste momento em que o governo Obama ainda se refestela sobre os louros, é bem capaz de a rede terrorista preparar alguma operação contra alvos israelenses ou judaicos. E não apenas para vingar a morte de Bin Laden, mas, principalmente, para deixar claro que a mudança de atitude em relação aos palestinos deve ser levada a sério.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Governo palestino de união nacional pode representar oportunidade de mudança

É possível que a fixação internacional pelo conflito entre Israel e os palestinos retorne com força; primeiro, por conta das tentativas crônicas de encontrar paralelos com as reivindicações da al-Qaeda. Como escrevi ontem, é possível mesmo que a própria rede terrorista passe a ser mais eloquente em relação ao assunto, num esforço de renovação após a morte de seu líder e retomada da popularidade perdida. Mais importante ainda é a reconciliação assinada entre os grupos palestinos Fatah e Hamas, que, na teoria, dariam fim às rivalidades bastante acentuadas nos últimos quatro anos.

 
Antes mesmo de entrar em vigor, as discussões e acusações mútuas deixam claro como será difícil superar os acontecimentos recentes: cerca de 400 membros ou simpatizantes do Hamas permanecem em prisões controladas pela Autoridade Palestina; por sua vez, o Fatah reclama que autoridades do movimento islâmico teriam impedido alguns dos membros do alto-escalão do grupo de deixar Gaza.

Certamente, essas pequenas divergências podem se transformar em problemas maiores, uma vez que elas dão ao menos um sinal importante sobre o distanciamento prático e retórico entre eles. O Fatah, majoritário na burocracia da AP, tem se transformado num ator moderado, disposto mesmo a negociar com Israel e atender às demandas das potências internacionais por pragmatismo na busca pela resolução do conflito. Nos últimos quatro anos, o Fatah conseguiu, na Cisjordânia, que suas próprias forças de seguranças prendessem terroristas e impedissem a realização de atentados contra israelenses. O grupo entendeu que este seria um passo importante que o credenciaria a fazer exigências durante as negociações.

Agora, por mais que tenham se unido novamente, as facções palestinas ainda discordam profundamente em assuntos fundamentais. Por exemplo, o Hamas continua a se recusar a reconhecer a própria existência do Estado de Israel. Por isso, há duas formas de visão sobre o governo de união nacional. A mais óbvia é acreditar que a inclusão do Hamas representa uma ameaça a qualquer tentativa de negociação. Esta é a posição do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

Mas há também uma leitura menos estreita. Penso que esta pode ser uma possibilidade de engajar o Hamas no processo. É claro que não será de um dia para o outro que o grupo irá abandonar seu discurso terrorista. Mas é preciso aproveitar este momento para tentar. Até porque, é preciso deixar claro, o Hamas decidiu correr em busca do diálogo com o Fatah porque está enfraquecido politicamente.

A Síria, país que abriga vários membros do Hamas, está em baixa. Assad corre risco de perder o poder e, claro, toda esta mudança interna pode respingar nos líderes palestinos que vivem por lá. Mais ainda, a população de Gaza tem sido afetada positivamente pelas manifestações democráticas no mundo árabe. E, claro, elas têm amigos e parentes que vivem na Cisjordânia. Ninguém comenta muito isso, mas as condições de vida no território controlado pelo Fatah têm melhorado consideravelmente. Basta dizer que o crescimento econômico está na casa dos 9%.

Apesar de Netanyahu acreditar que a inclusão do Hamas é uma ameaça ao processo de paz, esta não é a posição unânime do governo de Israel. Documentos sigilosos publicados pelo jornal israelense Ha’aretz mostram que o Ministério das Relações Exteriores admite que esta pode ser uma possibilidade de “mudança real no contexto palestino”. Possivelmente, pelo mesmo motivo que eu penso. Até porque, vale lembrar que o processo de paz andou muito pouco nesses quatro anos de “divórcio” entre Hamas e Fatah. Se houve tranquilidade na Cisjordânia controlada pela Autoridade Palestina, Israel e Hamas se enfrentaram em Gaza. Incluir o movimento islâmico no corpo político palestino pode ser uma forma de forçar não apenas pragmatismo, mas também responsabilidade institucional por seus atos.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

As possibilidades que restam à al-Qaeda

Membros da al-Qaeda argumentam que Osama Bin Laden não foi morto pelas forças especiais americanas. Segundo comunicado, um dublê do terrorista foi assassinado. Sinceramente, alguém imaginava que os correligionários de Bin Laden teriam atitude diferente? Claro que jamais irão admitir ter perdido o líder, fundador e inspirador do movimento. Os EUA, por sua vez, dizem ter cruzado dados e chegado à conclusão de que se trata mesmo do terrorista através de testes de DNA. Ponto final para a al-Qaeda? Imagina. Basta dizer que o morto era um de seus irmãos gêmeos perdidos.

A situação mostra bem como vai ser a escalada de discursos e práticas a partir de agora. Como muita gente, escrevi que a rede terrorista vive um de seus períodos menos relevantes. Principalmente porque o grupo jamais se preocupou em apresentar soluções práticas à população árabe. Por isso, a história deu prazo de validade curto à retórica de Bin Laden. Se num primeiro momento ele conseguiu preencher com seus atos certo desejo de revanche por parte de parcelas de cidadãos de países islâmicos, jamais obteve sucesso – ou mesmo pretendeu – em dar soluções práticas a demandas legítimas das pessoas comuns: melhores condições de vida, criação de empregos, democracia.

De certa forma, os EUA prestaram um “favor” a Bin Laden e à al-Qaeda. Do ponto de vista de uma vingança que levasse em consideração uma vitória ética ou histórica, digamos, os americanos teriam sido mais eficazes ao expor o terrorista ao ridículo. Esta não é uma possibilidade inviável. Bastaria apenas deixar que os acontecimentos sigam seu fluxo para testemunharmos a queda de boa parte das ditaduras árabes. Seria interessante assistir a um Bin Laden vivo gritando slogans de violência e radicalismo que não teriam qualquer impacto relevante. Mas pensar isso como estratégia política demanda doses cavalares de abstração.

Agora, existe uma pequena chance de, indiretamente, claro, Washington ter dado uma sobrevida ao movimento. Ao negar a morte de seu líder, os membros da al-Qaeda buscam mais uma vez se afirmar como o único contraponto mundial aos EUA. Mesmo que admitissem a perda do fundador, poderiam renovar objetivos e reanimar suas fileiras. Há poucas e incipientes manifestações que já o consideram um mártir do fundamentalismo islâmico.

E por falar em renovação, vale dizer que os radicais não são bobos e certamente farão uma pausa para analisar este novo cenário. E há grande possibilidade de, a partir desta reflexão, constatarem o óbvio: se o discurso original já não arrebata multidões de seguidores – e ontem apresentei os índices ínfimos de apoio popular no países islâmicos à al-Qaeda –, resta apenas uma solução: mudar o discurso. E isso é relativamente simples. O radicalismo da luta contra os infiéis americanos não seduz mais. As populações têm suas próprias prioridades e reivindicam melhorias. Só há um assunto ainda mobiliza o mundo islâmico e árabe, em particular: a situação dos palestinos.

Como escrevi no texto desta terça-feira, a questão palestina jamais foi prioridade à al-Qaeda. Mas isso pode mudar a partir de agora. Isso porque o assunto é uma espécie de “nicho de mercado”, talvez o último que resta aos terroristas órfãos de Bin Laden. Por mais que estejam imersos em suas próprias revoltas, as populações árabes não esqueceram o conflito entre israelenses e palestinos. Se agora estão ocupadas com seus assuntos domésticos, não veriam com maus olhos qualquer um que aceitasse lutar por uma suposta “justiça” realizada em nome dos palestinos. Por isso, não me espantaria que a al-Qaeda mudasse para continuar a existir. E, neste caso, sob a ótica terrorista dos seguidores de Bin Laden, a mudança poderia significar a realização de atentados a alvos israelenses ou judaicos em qualquer parte do mundo.

terça-feira, 3 de maio de 2011

O que Osama Bin Laden queria

Programas especiais em canais de televisão, suplementos em jornais, toda a sorte de comentários. A morte de Bin Laden segue o padrão de repercussão construído por ele desde o ápice dos atentados de 2001, nos EUA. A questão é que, como sempre, entre muitas análises pertinentes, surgem também grandes bobagens, alguns deslizes e pequenos equívocos. O que chama mais atenção é a confusão que se faz entre a luta de Bin Laden contra EUA, a agenda original da al-Qaeda e o conflito entre israelenses e palestinos.

Em meio ao fluxo interminável de informações, é preciso estar atento. Relacionar assuntos tão diversos pode e deve ser feito. No entanto, não é legítimo simplesmente inventar fatos para concluir o que quer que seja. Muita gente tem agido assim. Por exemplo, dizer que Bin Laden era o grande defensor da causa palestina é uma asneira. Primeiro, porque é preciso deixar claro de qual causa palestina estamos tratando. A do Hamas, que pretende destruir Israel para construir um Estado islâmico nos moldes do Irã? Ou o projeto viável da Autoridade Palestina, que assinou os Acordos de Oslo, adotou postura pragmática, renunciou formalmente a métodos terroristas e faz articulações políticas para a criação de um Estado palestino em Gaza e Cisjordânia?

Em nenhum dos casos, por mais díspares que sejam as posturas teóricas de Fatah e Hamas, a ideologia da al-Qaeda e Bin Laden se aplica. Por algumas razões: o conflito entre israelenses e palestinos não era originalmente a prioridade de Bin Laden; e, igualmente importante, o terrorista sempre teve como alvos prioritários instituições americanas – não israelenses ou judaicas.

Por mais que nunca tenha sido um líder religioso muçulmano e não tivesse autoridade para tal, em 1998, Bin Laden se sentiu no direito de declarar uma Fatwa - pronunciamento legal emitido por um especialista em lei islâmica – conclamando muçulmanos de todo o mundo a matar cidadãos americanos e seus aliados (civis ou militares). Como recorda Azeem Ibrahim, em artigo publicado no Huffington Post, o mulá Omar, líder espiritual do Talibã, contestou tal determinação justamente por Bin Laden não ser um clérigo.

Seja como for, cidadãos americanos e seus aliados – sem especificar quais aliados – eram os alvos originais da grande guerra terrorista imaginada por Bin Laden. Certamente, ele não era admirador de Israel, mas sua luta era prioritariamente contra os EUA e suas opções internacionais. E sua prática prova este argumento: antes mesmo dos atentados de 2001, Osama Bin Laden foi responsável por três grandes operações antiamericanas: os atentados às embaixadas no Quênia e na Tanzânia, em 1998, e, posteriormente, o ataque ao porta-aviões americano USS Cole, em 2000, no Porto de Áden, no Iêmen.

Depois de 11 de Setembro, as justificativas do próprio Bin Laden para a operação foram diversas: a corrupção do governo saudita apoiados pelos americanos e até a expulsão dos muçulmanos da Espanha, no século 17. O apoio dos EUA a Israel foi incluído muito mais como forma de propaganda, posteriormente, uma vez que a questão palestina tem grande apelo entre a população árabe e islâmica. Mas sempre é importante deixar claro que a criação de um Estado palestino nunca foi um projeto de Bin Laden e, muito menos, da al-Qaeda.

Em parte, os devaneios repletos de ambições quixotescas da rede terrorista explicam a baixa popularidade recente de Bin Laden mesmo entre a população muçulmana. Pesquisa do Pew Research Center mostra dados importantes: o apoio ao terrorista é de apenas 34% nos territórios palestinos; 26% na Indonésia (o país com maior população muçulmana no mundo); 22% no Egito; 3% na Turquia; e somente 1% no Líbano. Enquanto manifestantes arriscam suas vidas em busca de objetivos domésticos, Bin Laden sonhava com o fim de todos os Estados árabes e muçulmanos atuais e sua substituição por um califado que se estenderia entre o sul da Espanha e as Filipinas!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Obama derrota Osama: e agora?

A morte de Osama Bin Laden é um desses eventos-chave da humanidade. Se o líder terrorista que inspirou, financiou e reivindicou a autoria intelectual e participação prática nos maiores atentados realizados em solo americano conseguiu ser encontrado e assassinado por agentes da CIA, sua imagem e ideologia já fazem parte da história humana. Talvez, seja um dos exemplos do mundo que involuntariamente ajudou a construir: ocidentais e orientais conhecem seu rosto e, mais importante, a grande maioria dos habitantes do planeta foi atingida, mesmo que minimamente, por seu discurso radical. Bin Laden é um fenômeno de massa que, ironicamente, valeu-se de uma realidade que condenava para se reproduzir. Se não fosse a imprensa e os meios de comunicação, a al-Qaeda não teria conseguido repercutir suas diretrizes fundamentalistas.

Foto: a última residência de Bin Laden

Nesses primeiros momentos após a sua morte, há muita confusão e desencontro de informações: houve participação de agentes paquistaneses na operação de assassinato? O que será da al-Qaeda sem sua principal figura? Este é um tempo breve e raro; vivemos neste instante a curva, o suspiro antes do realinhamento.

A participação de agentes paquistaneses é um dado importante. Como escrevi muitas vezes por aqui, a Inter-Services Intelligence (ISI) – a agência de segurança do Paquistão – funciona como um Estado dentro do Estado. Acusada de realizar jogo duplo, é uma pedra no sapato dos EUA. Washington ajuda financeiramente o Paquistão, importante aliado regional americano nos esforços de guerra no Afeganistão, mas parte dos recursos tem sido desviada pelas ISI – em cujas fileiras há admiradores da própria al-Qaeda e do Talibã. Esta é uma das principais contradições herdadas por Barack Obama de George W. Bush.

No contexto de sua política externa, a principal preocupação de Obama, agora e sempre, é reabilitar o governo paquistanês. Por isso em seu comunicado oficial o presidente americano fez questão de deixar claro que as autoridades do país foram fundamentais durante o trabalho de localização do terrorista. A participação de agentes paquistaneses, no entanto, é negada por oficiais americanos. De qualquer maneira, há indícios de que Bin Laden estaria há seis anos na propriedade em que foi encontrado. A proximidade do local à capital paquistanesa, Islamabad, expõe, por si só, uma tremenda falha – no mínimo – ou certa complacência por parte das autoridades do país.

O assassinato do fundador da al-Qaeda vem em boa hora para Obama. Justamente no décimo ano dos atentados de 11 de Setembro e menos de um ano antes das eleições presidenciais dos EUA. Se já era difícil encontrar opositor ao atual presidente, agora tudo ficará ainda mais difícil para o partido Republicano. Alguns comentaristas também sugerem que o dia de hoje marca o fim da Guerra ao Terror. Pode ser que isso seja usado na próxima campanha, mas este é um assunto delicado.

Como escrevo, um dos principais erros da política externa americana tem sido não estabelecer objetivos claros. Isso ocorre neste momento na ofensiva à Líbia e também vale na luta contra o terrorismo. O que é vitória neste caso? Matar Bin Laden, matar todos os terroristas da al-Qaeda, acabar com atos de terror? Como se sabe, dentre todos eles, apenas matar Bin Laden é um objetivo razoável, digamos assim. O problema é que ele não resolve todos os problemas de segurança, certamente não elimina o conceito de Jihad global e não soluciona as questões geopolíticas americanas no Oriente Médio.

É preciso dizer também que, mesmo antes do assassinato de seu líder, a al-Qaeda já passava por um período de baixa. E não por competência de Obama ou qualquer agente do governo americano, mas graças à própria população árabe. As manifestações populares ainda em curso conseguiram resultados práticos jamais alcançados por Bin Laden. Em sua maior parte, os movimentos descentralizados rejeitam o uso de métodos de violência e não têm como principais vilões EUA, Israel ou os infiéis ocidentais, mas os próprios ditadores que se apropriaram do poder. No Egito e na Tunísia, por exemplo, os manifestantes conseguiram a derrocada dos líderes corruptos e em nenhum momento recorreram ao discurso fundamentalista como alternativa. Todos querem eleições limpas, rotatividade de poder, pluralidade de representação política e liberdade de imprensa. Como se sabe, Bin Laden sempre se opôs a tudo isso.

Há especulações sobre o futuro da al-Qaeda sem seu líder. Para ser franco, a organização é hoje mais uma inspiração a outros movimentos radicais do que a principal força terrorista em atividade. Sem e menor dúvida, no entanto, a morte de Bin Laden causará algum impacto em seus seguidores, uma vez que são conhecidos os conflitos internos entre seus herdeiros no movimento. Somente Bin Laden era capaz de uni-los – muito por conta de seu carisma pessoal. Se seu “martírio” enfraquecerá os membros da al-Qaeda e aprofundará as divisões entre eles ou se será encarado como injeção de ânimo e superação de rivalidades, só mesmo o tempo dirá.