terça-feira, 12 de julho de 2011

Bashar al-Assad usa EUA para resgatar legitimidade na Síria

A agressão às embaixadas de França e EUA em Damasco causou revolta aos governos dos países cujas representações diplomáticas foram alvo da fúria de militantes pró-Bashar al-Assad. E não é para menos. A campanha promovida pelo presidente sírio descumpre uma das mais básicas convenções internacionais. Atacadas durante 31 horas entre sexta-feira e sábado, os edifícios foram pichados, sujos e quebrados. Os manifestantes jogaram ovos, tomates, pedras e vidro. Toda esta violência tem razões estratégicas até bastante fáceis de serem identificadas. Na origem, a incapacidade do presidente-ditador de lidar com o impasse iniciado em meados de março e que já matou 1,4 mil pessoas.

Foto: manifestantes em protesto diante da embaixada americana

Assad tenta contornar a situação com as armas de que dispõe. Seu monopólio sobre todos os mecanismos do Estado permitem que ele transforme as críticas internacionais em caso de disputa entre a Síria e as potências ocidentais. Assim, usa também a imprensa oficial para usar a seu favor qualquer manifestação estrangeira. No caso específico dos ataques coordenados a partir da incitação governamental às embaixadas, a razão explicitada para justificá-los é a tentativa de EUA e França de intervirem nos assuntos domésticos do país. Refere-se, particularmente, às visitas realizadas na semana passada pelos representantes diplomáticos à cidade de Hama, foco de manifestações e confrontos entre tropas fiéis ao presidente sírio e manifestantes populares.

A situação agora tende a mudar um pouco. Os EUA tentaram o máximo que puderam se manter relativamente distantes dos acontecimentos na Síria. A violência em curso por lá é vista com preocupação em Washington por algumas razões: há a percepção de que uma invasão como a articulada à Líbia não é a melhor alternativa porque poderia – e certamente seria este o caso – acender o isqueiro numa região já naturalmente explosiva; além disso, a posição americana até agora se restringia simplesmente a pedir que Assad realizasse reformas democráticas, mas não exigia que o ditador deixasse o cargo. A Casa Branca teme que a saída do atual presidente represente a ascensão de grupos ainda mais radicais, como a Irmandade Muçulmana local. Esta é a mesma posição da administração israelense. Assad pode ser um grande problema, mas ao menos é um problema conhecido.

De qualquer maneira, o ataque às representações diplomáticas é um novo capítulo e força franceses e americanos a subirem o tom. “O presidente Assad não é indispensável e não temos absolutamente nada a ganhar com sua permanência no poder. Nosso objetivo é ver atendido o desejo do povo sírio por transformação democrática”, disse. Esta foi a primeira vez que o governo americano se viu obrigado a fazer um comunicado oficial que pode ser interpretado como um pedido de reformas no país realizadas por qualquer um. É como um aval de Washington a um futuro sem Assad. E é exatamente isso que o líder sírio mais queria. Polarizar o embate entre ele e o Ocidente – principalmente entre ele e os EUA – talvez seja sua única estratégia em busca do que lhe resta de legitimidade interna.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Membros do Quarteto tentam retomar negociações entre Israel e os palestinos. Mas não vai dar certo desta vez

Nesta segunda-feira, o conjunto de atores internacionais conhecido como Quarteto se reúne novamente em Washington. Formado por EUA, União Europeia, Rússia e ONU, o grupo tem como objetivo conduzir as negociações de paz entre israelenses e palestinos. Considerando que o diálogo está completamente parado e não produz avanços há tempos, a meta principal do encontro na capital americana sofreu um ajuste. Passa a se concentrar somente na redação de um comunicado capaz de persuadir as partes a voltar à mesa de negociações. Por mais louvável que seja, adianto desde já que nem isso vai acontecer.

Os palestinos prometem levar a reivindicação do estabelecimento de seu Estado à Assembleia-Geral da ONU marcada para setembro. A guerra diplomática em curso neste momento é simples e franca: Israel tenta como pode convencer outros países a não serem favoráveis ao projeto, uma vez que o considera improdutivo aos esforços de paz e também a seus próprios interesses políticos e vitais (as fronteiras pleiteadas pelo Estado palestino são as anteriores à Guerra dos Seis Dias, em 1967, e este governo de Israel costuma se referir a elas como “linhas indefensáveis”). Os palestinos estão em franca vantagem. Além de contar com amplo apoio popular internacional, dão como certo que esta popularidade irá se refletir em votos nas Nações Unidas. E isso vai acontecer mesmo, não tenham qualquer dúvida.

Os dois atores estão, portanto, travando uma guerra de bastidores em que, na prática, o objetivo de um anula o do outro. O presidente palestino, Mahmoud Abbas, diz que estaria até disposto a cancelar a iniciativa se o governo israelense interrompesse a construção na Cisjordânia (território que vai formar a maior parte do Estado palestino). Velho jogador político, Abbas sabe que esta é uma promessa que está bem distante de seduzir o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu – que tem nos colonos que vivem justamente na Cisjordânia uma boa parte de seus eleitores, mas também nos partidos que os representam o peso que mantém nos eixos a coalizão política que o sustenta no cargo. Congelar as atividades no território palestino é o mesmo que desmontar suas alianças políticas e, por consequência, quase um pedido de renúncia.

E como Netanyahu prefere apostar alto a abrir mão de seu projeto de poder pessoal, ele pensa não ter mesmo com o que se preocupar em curto prazo. Pesquisas de opinião pública mostram que ele seria reeleito, caso novas eleições fossem convocadas; a economia do país está bem; e Bibi pode ser um fenômeno mesmo. Se a situação continuar do jeito como está, deve ser o primeiro líder de governo a conseguir terminar o mandato desde Menachem Begin (1977-1981). Além disso, Jerusalém não aceita negociar com um gabinete palestino de união nacional que inclua justamente o Hamas.

Por tudo isso, o impasse é a maior realidade. O Quarteto até vai escrever um texto bonito, mas ineficaz. A diferença agora não é que israelenses e palestinos se recusam a escutar. O fato é que cada um dos lados sabe o que o outro quer, mas não admite ceder. Qualquer negociação pode ser bem-sucedida quando as duas partes admitem perder algo. O problema agora é que mesmo conceder o mínimo já significa perder demais.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Independência do Sudão do Sul deve ser encarada com realismo

Neste sábado, o mundo assiste à celebração do nascimento de um novo país, o Sudão do Sul. A cerimônia realizada na capital Juba conta com a presença de importantes líderes mundiais, como o ex-secretário americano Colin Powell, o secretário de exterior britânico, William Hague, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a enviada norte-americana Susan Rice, 30 chefes de Estado do continente africano e, incrível, o presidente do Sudão, Omar Hassan al-Bashir, acusado formalmente pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) de ser responsável direto pelo genocídio em Darfur, no oeste do país.

Foto: sudaneses do sul reverenciam a bandeira do país

Isso pode soar estranho – e esta é uma reação não apenas compreensível, mas também esperada. Bashir não só estará presente à cerimônia como também está previsto que ele faça um discurso. A situação não causa somente desconforto às personalidades, mas também aponta as contradições que cercam o evento. O novo país é fruto da guerra e da democracia ao mesmo tempo. Nasce após referendo popular de resultados amplamente favoráveis à emancipação da parte sul do Sudão (até agora o maior Estado africano) e também do conflito mais longo e sangrento ocorrido na África. A guerra civil sudanesa ocorreu entre 1983 e 2005 e foi responsável pela morte de mais de 2 milhões de pessoas.

A situação é bastante favorável a Omar Hassan al-Bashir, que mostra toda sua habilidade política e usará o palanque de forma a aparecer mundialmente como um líder pacífico. Por mais que o Sudão tenha se resignado – acatou a independência do Sudão do Sul –, Bashir está longe de estar satisfeito. Se por um lado demonstra ter aceitado o resultado das urnas, não esgotou seu vasto arsenal de provocações e obstáculos ao novo país. O ano de 2011 já é o mais sangrento desde o fim da guerra civil, em 2005. Quase 2,4 mil pessoas morreram em conflitos étnicos cujos agentes são amplamente apoiados pelo presidente sudanês. Desde 5 de junho, as tensões na região de Kordofan do Sul (estado do Sudão localizado próximo à fronteira do Sudão do Sul) têm aumentado e os conflitos entre o exército regular sudanês (controlado por Bashir) e tropas leais ao novo país já provocaram a fuga de mais de 73 mil pessoas.

Apesar da independência deste sábado, é preciso deixar claro que os conflitos não terminaram – e não há mesmo razão para crer que eles irão terminar em breve. Principalmente porque os Estados recém-separados ainda mantêm divergências em assuntos fundamentais: o traçado exato das fronteiras (e daí os conflitos em Kordofan do Sul) e controle da produção de petróleo. Não são temas marginais ou simples de serem solucionados. E não imaginem que Bashir irá abrir mão de benefícios em nome de algum altruísmo político.

O fato é que o Sudão do Sul passa a controlar 75% da produção diária dos 490 mil barris de petróleo. Curiosamente, o caminho para a solução pode ser uma espécie de demonstração da nova balança de poder internacional. O Sudão do Sul não possui tecnologia própria ou capacidade logística de extração. A empreitada ficará a cargo das estatais petrolíferas de China, Malásia e Índia. Neste caso específico de diplomacia econômica, todo mundo conhece o posicionamento chinês voltado quase que exclusivamente para o pragmatismo. Resta saber como agirão Malásia e Índia em caso de escalada de violência. No fim das contas, a festa de sábado pode ser apenas o pontapé inicial de novos conflitos.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Irã leva mais uma na disputa regional com os EUA

A geopolítica está repleta de ironias. Esta semana é mais uma daquelas ocasiões que reafirmam isso. Curiosamente, o primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, e o vice-presidente do Irã, Mohammad Reza Rahimi (foto), assinaram seis acordos de cooperação. A iniciativa acontece pouco depois da aprovação de uma empreitada conjunta entre os dois países para a construção de um gasoduto no valor de 365 milhões de dólares.

Para relembrar, Irã e Iraque travaram uma das guerras mais sangrentas do final do século vinte. Mais de um milhão de pessoas foram mortas em oito anos de conflito (1980-1988). Parece que os inimigos superaram todas as diferenças na busca pelo desenvolvimento regional. Bonito isso, não é? Uma pena, no entanto, que a construção de “um mundo melhor” seja apenas um slogan de festival de rock (?). A realidade, infelizmente, permite bem menos fantasias.

O primeiro-ministro Maliki está comprometido com os iranianos. No ano de 2010, o Iraque viveu um tremendo impasse político que acabou solucionado somente quando os xiitas intervieram nas eleições e se colocaram ao lado de sua coalizão. Adivinhem quem foi fundamental para a articulação deste apoio decisivo? Acertou quem pensou no Irã. E não é para menos. Além de vizinho do Iraque, a República Islâmica liderada por Mahmoud Ahmadinejad é majoritariamente xiita em sua composição populacional. Como tratei inúmeras vezes por aqui, a grande aliança de Estados xiitas e seus beneficiários disputa a cada palmo e gesto político a liderança militar do Oriente Médio. O Irã é o líder deste grupo e, na prática, pretende exercê-la hegemonicamente.

Nada melhor para isso do que desafiar seus maiores inimigos. E o fazem com a certeza da vitória. Os EUA sairão do Iraque mais cedo ou mais tarde. Aliás, já há uma data estabelecida: o dia 1 de janeiro do ano que vem. A partir daí, ninguém sabe quais alianças serão estabelecidas pelo governo de Bagdá. A ideia dos americanos era manter dez mil soldados no país – até como forma de monitorar a movimentação dos iranianos neste território livre. No entanto, mesmo este planejamento depende de um pedido formal do primeiro-ministro Maliki. Porém, até agora, nada foi requisitado.

Isso não chega a surpreender. Principalmente por conta das opções políticas do líder iraquiano. Ele não será o primeiro nem o último a pensar em formas de manter seu cargo em detrimento de qualquer visão estratégica nacional. Ou, quem sabe, para ele o cenário ideal seja uma aliança com o Irã em que o Iraque tenha uma espécie de dívida eterna pela vitória xiita nas últimas eleições. Vale dizer, no entanto, que o governo de Teerã sai vitorioso mais uma vez. Afinal de contas, sem precisar se expor numa guerra aberta, parece que vai conseguir reforçar sua participação no futuro iraquiano mesmo depois de oito anos de esforços e presença contínua dos EUA no país. Na grande disputa de poder regional, ponto para o Irã; e derrota americana.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Ofensiva paquistanesa no Afeganistão pode causar problemas aos EUA

Era só o que faltava. Uma escalada na retórica entre Afeganistão e Paquistão logo agora que os EUA anunciam a progressiva retirada de suas tropas da região. É complicado entender isso porque no centro deste problema estão dois atores tão importantes quanto indecifráveis. Para situar, há protestos de cidadãos afegãos que acusam os militares paquistaneses de serem os autores de ataques realizados em sequência desde junho, quando mais de 700 mísseis foram disparados contra vilarejos que se estendem pela fronteira oriental. Não se tratam de acusações infundadas, mas os afegãos querem punir os responsáveis pela morte de 60 pessoas – isso sem mencionar que outras tantas centenas perderam suas casas.

Foto: desabrigados afegãos 

O caso do Afeganistão é complicado. O país foi reinventado a partir do nada desde a invasão americana de 2001. Os EUA criaram instituições e um aparato político responsável pela ascensão de Hamid Karzai ao poder. Por mais que todo mundo torça pelo contrário, é preciso ser honesto e dizer que o Afeganistão ainda está longe – muito longe – de ser um Estado nacional tal como imaginamos por aqui pelo Ocidente.

Do outro lado desta equação está o Paquistão, país relativamente consolidado, mas cujas instituições têm fidelidades distintas. O governo central de Islamabad parece estar do lado americano – no caso, assumiu um compromisso de combater a atividade Talibã e terrorista a partir de seu território. Tanto que recebeu mais de 20 bilhões de dólares em ajuda de Washington desde 2001. O problema é que a se o Paquistão diz publicamente estar do lado dos EUA, o mesmo não pode ser dito sobre membros importantes de seus muitos escalões militares. Há profundas e graves divisões práticas e ideológicas em órgãos importantes, sendo que a ambiguidade mais conhecida – e tema de muitos posts por aqui – é representada pelas ISI (Inter-Services Intelligence, a agência de espionagem nacional) e por suas muitas fileiras de admiradores do discurso do Talibã e da al-Qaeda.

Desde segunda-feira, os militares paquistaneses estão em campanha contra o Talibã numa empreitada que, oficialmente, pretende pacificar a região que é conhecida por servir de abrigo a radicais que atacam tropas americanas ao longo da fronteira entre Paquistão e Afeganistão. Não se trata somente disso, é claro, mas Islamabad ainda precisa mostrar serviço a quem lhe fornece substancial ajuda financeira principalmente depois da gafe que envolveu a captura de Osama bin Laden e a revelação de que o líder da al-Qaeda se escondia há metros de quartéis militares e centros de treinamento paquistaneses. Mas não é só isso.

A ambiguidade do Paquistão está mais uma vez manifesta. O país sofreu constantes ataques por parte das forças da OTAN que em diversas ocasiões infringiram a soberania nacional na luta contra radicais do Talibã baseados no território. Quando os militares paquistaneses atacam o Afeganistão eles estão, de alguma maneira, dando o troco. E não apenas porque consideram isso justo, mas porque a própria população demanda respostas às ofensivas sofridas. Neste universo de muitas contradições e complexidades, apesar da grande ajuda financeira americana, o Paquistão é hoje um dos países onde o sentimento antiamericano encontra muitos adeptos. De acordo com pesquisas do Pew Research Center divulgada em junho deste ano, somente 12% da população acreditam que os EUA são aliados. O país hoje só perde para a Turquia no ranking que mede a impopularidade internacional americana.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Doença de Chávez expõe lamentável quadro político da Venezuela

Hugo Chávez está de volta à Venezuela. Depois de quase um mês de tratamento em Cuba e após o anúncio de que estava na ilha para se tratar de um câncer, o presidente decidiu retornar ao país que está sob seu comando há nada menos do que 12 anos. Em primeiro lugar, acho importante destacar que, apesar de trágico, o câncer não necessariamente impede que as pessoas deem prosseguimento a suas vidas. Isso vale também para líderes políticos. Nesta área, inclusive, há dois exemplos recentes, sendo um deles bastante próximo aos brasileiros; a presidente Dilma. Ela mesma chegou a ser questionada sobre suas condições de saúde antes do processo eleitoral. O outro episódio relevante e recente é o presidente paraguaio, Fernando Lugo.

De qualquer maneira, a doença e o tratamento de Chávez criaram uma situação política nova na Venezuela. Houve um tanto de especulação sobre se retornaria ao país e, se o tratamento no exterior fosse prolongado, quem poderia ou deveria ocupar seu cargo. Talvez para evitar o progresso das discussões, o presidente decidiu retornar. Não se sabe, entretanto, como será seu governo a partir de agora. Arrisco dizer que suas aparições públicas serão raras. Para se ter ideia, ele mesmo admitiu não ter condições de participar das comemorações pelo bicentenário de independência que se iniciam nesta terça-feira. Quem acompanha um pouquinho de política sabe que Chávez não perderia por nada uma ocasião como esta.

A aparente saúde debilitada de Chávez expõe também a frágil estrutura política do país. Quando digo isso não me refiro às instituições venezuelanas, de forma alguma. A questão é que, propositalmente ou não, tudo gira em torno do presidente. Isso pode ser creditado a seu enorme carisma, polêmica e retórica. Ou mesmo aos incríveis 12 anos de poder. Mas o fato é que mesmo a oposição pareceu órfã durante seu sumiço. Não há muitas propostas ou ideias. O grupo antichavista é dependente de Chávez. Para ser franco, não creio que este seja um projeto de um lado ou de outro, mas uma consequência de uma disputa que se polarizou em torno da emblemática figura presidencial.

Dividida ao meio, a Venezuela é hoje um país cheio de problemas. Ostenta a segunda mais alta taxa de homicídios do continente e um dos maiores índices de inflação do mundo. Ou seja, sem se aprofundar demais, há muito o que ser resolvido. E quando os problemas são sérios – como nesses casos –, os grupos políticos deveriam estar empenhados em apresentar propostas para resolvê-los. Mas estão todos divididos em torno da personalidade e dos métodos de Chávez. Sua ausência temporária deixou isso bem claro.

E se o presidente é um tanto questionado pela oposição interna, é preciso dizer que este mesmo grupo não tem lá muito do que se orgulhar. Além de não apresentar muitas ideias, este é um momento particularmente problemático. Alguns de seus líderes fizeram um enorme favor a seu maior inimigo ao procurar o embaixador americano em Caracas e requisitar auxílio financeiro de instituições governamentais dos EUA para, claro, combater Hugo Chávez. As informações foram divulgadas pelo WikiLeaks e, não tenham dúvidas, o presidente venezuelano vai se fartar com elas. Para completar o perfil patético da oposição venezuelana, vale dizer que os americanos disseram não ter nenhum interesse em se intrometer nos assuntos internos do país.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Polônia pode ser a boa surpresa europeia

Enquanto a Europa passa por um de seus piores momentos na história recente, um acontecimento passa despercebido. A Polônia assume a presidência rotativa e temporária da União Europeia. Até aí, nada. O revezamento é parte da estrutura política do bloco e a presidência húngara que se encerra nesta sexta-feira passou, digamos, em brancas nuvens. Quer dizer, houve uma série de acontecimentos relevantes e eles ainda estão em curso, mas a verdade é que a Hungria não fez grandes contribuições.

Não se sabe se os poloneses adotarão perfil muito diferente, mas há bons motivos para vislumbrar novidades. Coincidentemente, inclusive, é um tanto representativo a presidência da UE ficar a cargo da Polônia nesses tempos turbulentos. O país se apresenta como uma espécie de “nova” Europa. Se a crise grega polarizou o grupo perversamente chamado de PIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) e as grandes economias de Alemanha, França e Grã-Bretanha, a Polônia pode ser uma terceira via.

Atualmente, o país vai relativamente bem. É a sexta maior economia do continente – está entre as 20 maiores do mundo –, mantém índice de crescimento anual de 4% e prevê um déficit de 2.9% em relação ao PIB em 2012. Não são dados impressionantes, mas contrastam positivamente com a catástrofe generalizada. Num período em que, como escrevi durante esta semana, os laços que unem os Estados-membros da UE estão desgastados – para falar o mínimo –, o discurso polonês soa como resgate teórico dos objetivos do bloco. O primeiro-ministro Donald Tusk fez questão de dizer que a solidariedade europeia precisa ser mais do que um simples slogan. Pode ser um discurso de posse, claro, mas mostra uma disposição interessante.

É a primeira vez que a Polônia assume a presidência da UE. E é bom lembrar que os quesitos de poder mudaram. Diante do mar de insegurança e incerteza, os poloneses pelo menos aparentam estar no rumo certo. E isso já é muito. Como há cada vez mais complexidades e novos atores no cenário internacional, não seria surpresa se o governo de Varsóvia passasse a reivindicar ganhos políticos. Ocupar a presidência europeia neste exato momento pode ser arriscado, mas também pode abrir caminho para oportunidades. Como a Polônia tem sua própria agenda, é possível que passe a ter mais força para torná-la prática.

Dentre algumas das intenções polonesas conhecidas e expostas pelos líderes do país estão a finalização das negociações para o ingresso da Croácia na UE, além de avanços nos diálogos com Turquia e Islândia. São objetivos ambiciosos principalmente quando o bloco europeu passa por este período bastante conturbado. A Polônia quer expandir justamente no momento de maior recuo político e econômico. Se Varsóvia conseguir acalmar o nervosismo interno no continente e também dar passos concretos para novas adesões, já terá feito muito mais do que esperado.