sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O descaso dos países desenvolvidos com o caos na África

Enquanto as potências mundiais voltam seus olhos para o atual momento de instabilidade no sudeste asiático, a política internacional apresenta outra face tão perversa quanto o terrorismo: a falência de Estados inteiros no continente africano.

Se a situação no Congo já é reconhecidamente dramática e milhares de pessoas morrem em Darfur, no Sudão, nesta semana Europa e Estados Unidos se vêem diante de alguns fatos novos (que são novos somente para a cobertura dos jornais mais importantes do mundo): a maior parte da população da Somália pode estar beirando a total inanição; a grave crise de cólera no Zimbábue pode matar milhares de pessoas, principalmente com a chegada das chuvas de verão.

No primeiro caso, é preciso deixar claro que praticamente metade dos somalis depende de programas externos de distribuição de alimentos. Os quase 20 anos de conflitos armados - que faliram o Estado - tornaram difícil a movimentação de organismos de ajuda internacionais, como a Cruz Vermelha.

Numa mostra de desespero absoluto, não lhes resta outra alternativa a não ser comer os animais dos quais tiravam seu sustento, como camelos e bodes. Ou seja, num futuro dramaticamente breve, não restará mais nada ao povo da Somália.

Não deixa de soar tragicamente irônico o fato de o país ter sido alvo de condenação internacional recente por conta dos cerca de 100 seqüestros de navios cometidos em sua região costeira.

Como a África não permite a elaboração de escalas de degradação de toda a sorte (ou azar, no caso), a situação no Zimbábue é igualmente perversa. A falha do sistema de recolhimento de lixo, de saúde e do fornecimento de água provocou uma epidemia de cólera responsável pela morte de, até o momento, 565 pessoas, além de ter infectado outras 13 mil.

O fato, entretanto, ainda é mais complexo porque envolve um amplo debate sobre a corrupção do governo do presidente Robert Mugabe - que se utilizou da crise para culpar as sanções impostas pelos "neo-colonialistas" americanos e europeus.

O absurdo, dentre vários outros, é que a morte de milhares de pessoas pode estar sendo usada como plataforma política para a derrubada de Mugabe. Segundo editorial publicado nesta sexta-feira pelo jornal britânico Daily Telegraph, "existe uma 'tentação' para deixar o governo de Mugabe encarar sozinho as conseqüências de suas loucuras, na esperança de que a epidemia precipite sua queda".

Clique
aqui para ler o editorial na íntegra

Numa mesma semana os estrategistas internacionais são capazes de formular duas teorias absolutamente divergentes. De um lado, o combate ao terrorismo só será eficaz na medida em que puder ampliar os benefícios do governo da Índia, por exemplo, à população minoritária muçulmana desassistida pelo progresso econômico do país. 

Por outro lado há quem defenda que a deposição de Robert Mugabe deve acontecer a qualquer custo, mesmo que para isso milhares de vidas sejam perdidas durante a epidemia de cólera. 

É a teoria do quanto pior, melhor. Mas é completamente despropositado sugerir que mais uma vez a população do Zimbábue pague esta conta. 

Ainda pior é  o profundo descaso das potências mundiais com as tragédias africanas. O conceito de aparato de Estado está falido, mas sequer existe a intenção por parte dos organismos multilaterais de intervir no que restou desses países. 

Em tempo - sempre gosto de ler as opiniões da imprensa local dos Estados sobre os quais escrevo. Mas o jornal The Herald, do Zimbábue, é absolutamente chapa-branca. Não há críticas ao governo, e os editoriais deixam claro que Mugabe não pode ou deve ser contrariado. Para se ter uma idéia, um dos textos opinativos questiona se o presidente-eleito americano, Barack Obama, irá responder ao "ramo de oliveira" estendido pela mensagem oficial de congratulação do governo do Zimbábue. 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A difícil missão de Rice no sudeste asiático, e lições para combater o terror

É bem possível que a secretária de Estado norte-americana, Condolezza Rice, pensasse até há duas semanas que poderia levar com certa tranqüilidade o período final do governo Bush. Mas aí vieram os ataques a Mumbai e a conseqüente complicação causada pelo atual efeito dominó da política global. 

Mais do que simplesmente exercer a liderança moral e logística da convencionada Guerra contra o Terror, os Estados Unidos estão diretamente interessados em frear qualquer possível escalada de violência no sudeste asiático. A presença de grupos extremistas no Paquistão é uma ameaça direta às tropas americanas que combatem o Talibã no vizinho Afeganistão. E, como já escrevi outras vezes, é este o grande alvo estratégico do futuro governo dos Estados Unidos. 

Mas agora, com a ligação cada vez mais clara entre os terroristas de Mumbai e membros do alto escalão militar e de inteligência do Paquistão, evitar o acirramento dos ânimos na região é um objetivo no mínimo complicado. 

A Índia está convencida da participação direta do grupo terrorista Lashkar-e-Toiba, que em suas fileiras conta com ex-membros das forças armadas paquistanesas profundamente identificados ideologicamente entre si e cujo objetivo é claro: criar um Estado islâmico nas regiões do centro e sul da Ásia. Como desarmar, estabilizar ou desmantelar grupos jihadistas com essas características, é a pergunta que ninguém sabe responder. 

A grande questão do momento é estabelecer um limite para a escalada de violência. Afinal, o governo indiano é pressionado pela própria população - insatisfeita não somente com as forças de segurança que não conseguiram evitar os atentados, bem como ansiosas por uma resposta militar ao vizinho paquistão. 

Mais do que constituir uma república islâmica em toda a Ásia, converter todos os hinuds, judeus e cristãos, o terrorismo é alimentado pela instabilidade política. Olhando por este aspecto, é possível dizer que os ataques a Mumbai foram bem-sucedidos, na medida em que interromperam as conversações entre indianos e paquistaneses sobre a normalização total das relações entre os dois países. Os diálogos estavam em estágio avançado. Mas aí vieram os atentados e o processo desandou. 

Para Arthur Herman, autor do livro Ghandi e Churchill: A Rivalidade Épica que Destruiu um Império e Forjou Nossa Era, dentre as potências ocidentais, somente Estados Unidos e Inglaterra aprenderam a lidar com a ameça terrorista. Ele acredita que os governos devem combatê-la com firmeza e sem concessões. 

"Terroristas islâmicos não querem justiça, respeito a suas crenças ou o restabelecimento de uma imaginária terra natal. Eles desejam morte e violência. E é o dever de cada governo prover morte e violência aos extremistas, antes que estes o façam (contra a população civil dos respectivos países)".

Para ler o artigo completo, clique aqui.

E agora Condolezza está no sudeste asiático tentando estabelecer um plano de ação. Pediu calma ao governo indiano, que, por sua vez, já informou a Islamabad que deseja receber 20 suspeitos de terrorismo escondidos em território paquistanês. Num esforço para mostrar controle da situação, o presidente do Paquistão, Asif Ali Zardari, declarou que os organismos de defesa e justiça do país irão julgar esses suspeitos. 

A pressão agora é maior sobre o governo paquistanês. Apesar da retórica positiva, as evidências mostram que o próprio Paquistão sofre com terrorismo e principalmente caos interno. Num período de 16 meses, 1.500 pessoas foram mortas em atentados suicidas cometidos pela al-Qaeda. 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

OTAN volta atrás e já considera retomar diálogo com a Rússia

Em encontro realizado em Bruxelas, os países-membros da OTAN (a aliança militar entre Europa e Estados Unidos) decidiram relaxar as restrições à Rússia. Isso, entretanto, ainda não significa a retomada plena dos diálogos com Moscou, congelados desde a invasão à Geórgia, em agosto deste ano. 

Esta pode ser uma das últimas estratégias de grande impacto costuradas pela atual secretária de Estado, Condolezza Rice. Ela visa a atender, principalmente, aos pedidos de Itália e Alemanha. De certa forma, também representa uma vitória para a Rússia - que aumenta sua auto-estima oficial na medida em que não ofereceu qualquer contrapartida diplomática para voltar a ter a possibilidade de restabelecer os contatos com a rica Europa Ocidental. 

Embora a dependência européia dos recursos naturais da Rússia tenha ficado mais uma vez clara, numa tentativa de mostrar certa independência, a OTAN declarou que não abre mão de avaliar as candidaturas de Ucrânia e Geórgia ao organismo multilateral - não é novidade para ninguém que o presidente Medvedev e o primeiro-ministro Putin são absolutamente contrários à participação de países considerados parte de sua "esfera de influência" (seja lá o que isso signifique em pleno século 21) em blocos econômicos ou militares ocidentais. 

De qualquer forma, a OTAN optou por uma solução política e conciliatória com os russos. Apesar de se comprometer a avaliar as candidaturas das duas ex-repúblicas soviéticas, é muito pouco provável - para não dizer impossível - que o ingresso dos países na aliança militar ocidental ocorra em breve. O processo costuma ser demorado, ainda mais em casos como esses nos quais há enorme polêmica envolvida. 

Para se ter uma idéia, a comissão da OTAN encarregada do caso ucraniano foi estabelecida em 1997. E ainda hoje Kiev aguarda uma resposta sobre quando e se vai fazer parte da organização. Levando-se em consideração que o estudo sobre a possibilidade de ingresso da Geórgia começou em agosto deste ano, fica claro que até Kafka - para citar os vizinhos tchecos - ficaria surpreendido com tamanha lentidão. 

Mas o assunto causa grande controvérsia, como não poderia deixar de ser. Como a carta de fundação da aliança - que, diga-se de passagem, completa 60 anos em abril do próximo ano - estabelece defesa irrestrita entre seus membros caso algum deles seja atacado, não falta quem defenda que o ingresso da Ucrânia e principalmente da Geórgia poderia significar um altíssimo risco para a segurança da Europa e do planeta. Afinal, não há garantias de que a Rússia não voltaria a invadir a Ossétia do Sul, o que obrigatoriamente levaria a um confronto de proporções gigantescas envolvendo a Europa Ocidental, Estados Unidos e Rússia. 

Em artigo publicado nesta terça-feira no The Moscow Times, o ex-executivo-chefe da Agência de Defesa Européia, Nick Witney, argumenta que, após o fim da União Soviética, a OTAN deixou de ter uma razão clara para existir, mas só se sustenta devido aos conflitos militares e ideológicos que se seguiram entre o final do século 20 e o início deste. 

"A OTAN tem mostrado incrível tenacidade. Ela deveria ter desaparecido depois do colapso da URSS e do Pacto de Varsóvia (contraponto militar soviético e, aí sim, dos países que compunham sua esfera de influência à aliança ocidental) porque seu trabalho já havia sido concluído. Mas aí veio a crise nos Balcãs dos anos 1990 que culminaram com a percepção de que somente o poderio militar americano poderia pôr fim à limpeza étnica promovida pelo presidente sérivio, Slobodan Milosevic; em seguida foram os atentados de 11/9 que levaram as tropas da OTAN para o Afeganistão". 

Para ler o texto completo, clique aqui.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Os dois nomes da discórdia da equipe de Obama

Parecia que iria levar mais tempo, mas essa semana marca o início de uma das mais profundas mudanças na Era da Mudança nos Estados Unidos. Com a apresentação formal da equipe encarregada das áreas de segurança interna e política externa, Barack Obama deixa oficialmente a posição de pedra e passa a ocupar a de vidraça. 

A nomeação dos futuros ocupantes do próximo governo é tão fundamental ao resto do mundo justamente por causa da impopularidade da política externa de George W. Bush. Esperava-se do presidente-eleito a formação de um quadro que representasse um contraponto contundente às atuais diretrizes de Washington. 

Mas isso não aconteceu. Muito pelo contrário. E a surpresa veio, principalmente, pela manutenção de Robert Gates na Secretaria de Defesa. 

Além de já ocupar a pasta, Gates representa a continuidade - mesmo que temporária, como alguns sugerem - de uma importante figura política que, nos últimos dois anos, é um dos que regem as forças americanas no Iraque numa guerra profundamente criticada por Obama durante a corrida eleitoral. 

A decepção dos que esperavam por mudanças imediatas também ficou por conta da confirmação de Hillary Clinton - sua opositora durante as primárias do Partido Democrata - como secretária de Estado. 

Em relação à política internacional americana, as opiniões da senadora são consideradas bastante divergentes das dos futuro presidente. Ela deu voto favorável à invasão do Iraque e, justificando a escolha, disse que a decisão foi tomada com absoluta convicção. Além disso, quanto às ambições nucleares iranianas, já deixou claro que nenhuma opção deve ser descartada para impedir o acesso da república islâmica a armamento de destruição em massa. 

Segundo Paul Reynolds, jornalista da editoria internacional da BBC, as mudanças foram sutis e muito mais filosóficas do que práticas. 

"O objetivo (dessa nova equipe) será tentar resolver os problemas antes de eles alcançarem o estágio em que o uso da força militar seja considerado. Obama escolheu pessoas preparadas para o uso do poderio americano, mas que não têm essa intenção, ao contrário dos 'neoconservadores' do governo Bush", diz. 

É preciso deixar claro, entretanto, que com Obama os Estados Unidos continuarão a lutar em três frentes: Iraque, Afeganistão e a busca por bin Laden e o desmantelamento da al-Qaeda muito possivelmente no Sudeste Asiático. 

De qualquer maneira, dois grupos de pesquisa independentes afirmaram que vão expedir comunicados à equipe de Obama pedindo ao futuro governo americano para investir em conversas com o Irã sem exigências de pré-condições e também apoio a negociações de paz entre Israel e Síria. 

Por outro lado, a apresentação dos novos encarregados da área de segurança americana mereceu um editorial elogioso do The New York Times. O jornal - abertamente favorável ao presidente-eleito - comemora as escolhas de Obama - que justificou a manutenção de Gates e a nomeação da ex-rival Hillary afirmando que "preza personalidades e opiniões fortes". 

Ainda segundo o editorial, Obama, cuja experiência internacional é limitada, mostra que "prefere assessores com real autoridade no assunto e que não terão medo de discordar dele". Leia aqui o texto na íntegra. 

Para um perfil mais detalhado da equipe de segurança e política externa do próximo governo americano, clique aqui

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

As diferentes incompetências dos governos de Índia e Paquistão

A chave para compreender os atentados na Índia pode ser mesmo o Paquistão. Talvez não o governo oficial de Islamabad, como escrevi no último post, mas a própria incompetência do Estado. Aliás, talvez esse seja um caminho capaz de explicar as tragédias que hoje unem os dois países do subcontinente indiano. 

Em relação aos ataques recentes, não há necessidade do estabelecimento de uma comissão como a que investigou o 11/9 nos EUA para notar o patente descaso das autoridades indianas com os sinais mais do que evidentes de que algo grande e trágico estava prestes a acontecer. 

Cerca de uma hora antes do início da troca de tiros em Mumbai, moradores de um vilarejo do sul da região relataram ter visto um grupo de dez pessoas estranhas à comunidade atracando no continente a bordo de um bote inflável. A polícia local foi informada do ocorrido, mas nada fez a respeito. 

Mais ainda, há quatro meses o setor de inteligência do país vinha recebendo a informação de que muito provavelmente parte dos quase mil barcos que cruzam Guajarat e Mumbai poderia estar contrabandeando munição e explosivos para a cidade. O responsável pela segurança portuária disse, na semana passada, que o aviso se tratava somente de "informação genérica". 

A burocracia e falta de comunicação entre as unidades de segurança da Índia tornam o país alvo fácil para qualquer ataque. Não por acaso inúmeros atentados terroristas ocorreram nas principais cidades e provavelmente a recente onda de violência em Mumbai não será a última. 

No lado muçulmano da questão, o Paquistão continua a negar qualquer envolvimento com os acontecimentos de  Mumbai. Pode ser realmente que o Estado não tenha nada a ver com isso mesmo. Até porque o país está falido, e o governo, em muitas regiões, simplesmente não existe. A situação é tão crítica que, recentemente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) teve de emprestar 7,6 bilhões de dólares para estabilizar a frágil economia paquistanesa. 

A miséria acaba por se tornar uma poderosa aliada do fundamentalismo. Na ausência de educação formal em regiões tribais, os pais se vêem cooptados a mandar seus filhos para escolas corânicas administradas por organizações extremistas. Assim, toda uma geração está recebendo uma profunda educação religiosa e jihadista. Além disso, nessas mesmas escolas, os jovens também recebem treinamento militar. 

Com um poderoso orçamento, o Serviço de Inteligência do Paquistão (ISI) tomou para si parte dessa região, a poucas horas da fronteira com o Afeganistão. De fato, a ISI atua de forma independente e profundamente ideologizada. 

Em meio a este caos, um arsenal nuclear está escondido em algum lugar entre Karachi e Lahore. Pior: ninguém sabe a cargo de quem ele está confiado. 

Autoria dos ataques

Por outro lado, está cada vez mais difícil descobrir os reais autores dos atentados. Segundo o jornal britânico Sunday Times, as autoridades indianas conseguiram gravar telefonemas entre os terroristas e pessoal alocado no Paquistão. 

O único autor dos ataques preso é paquistanês. Fica agora a dúvida quanto as demandas do grupo para a realizar a ação. 

Uma teoria recente e defendida por Paul Cornish - representante do Programa Internacional de Segurança do Real Instituto de Relações Internacionais de Londres - é ainda mais mórbida. Para ele, é possível que a ação não tenha nenhuma carga ideológica, mas que tenha sido realizada em busca apenas de fama e maciça cobertura da mídia mundial. Se esse era o objetivo, sem dúvida ele foi atingido. 

Para ler o artigo completo, clique aqui

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Nova teoria sobre os atentados

Ainda permanecem as dúvidas sobre os autores dos atentados na Índia e suas reais motivações. As especulações aumentam na mesma medida em que o tempo passa e os corpos aparecem. E uma das teorias menos maniqueístas talvez seja a que, até o momento, possa explicar melhor os conceitos ideológicos por trás da ação terrorista que ainda continua.

Como uma das principais plataformas internacionais do presidente eleito Barack Obama é justamente promover a aproximação entre Índia e Paquistão, o objetivo dos ataques seria causar o maior retrocesso possível no processo de pacificação da região. Segundo análise de Jane Perlez, do The New York Times, evitando a escalada de violência com a Índia, o governo paquistanês poderia se dedicar mais à luta contra militantes que usam o país como base para treinamento terrorista.

O problema, entretanto, é que promover relações normais com o histórico rival está longe de ser unanimidade mesmo entre as autoridades do alto escalão de Islamabad. O Serviço de Inteligência do Paquistão (ISI) é uma das principais instituições oficiais cuja maioria de seus membros é contrária à aproximação com a Índia. A jornalista americana cogita a possibilidade de indiretamente os terroristas terem contado com o apoio da agência em suprimentos e treinamento.

Em 2001, Nova Déli já havia acusado a ISI de ter participação no ataque ao parlamento indiano em que 12 pessoas foram mortas. Segundo Bruce Riedel, um dos assessores de Obama para assuntos relacionados ao Sudeste Asiático, Osama bin Laden teria criado um forte movimento jihadista - com apoio da Inteligência Paquistanesa - para desafiar o controle indiano na Cashemira.

Essa teoria me parece a que melhor explica a situação, uma vez que une as duas correntes de pensamento aparentemente dissociadas até então: se os ataques haviam sido planejados pela al-Qaeda ou se grupos muçulmanos descontentes da Cashemira eram os responsáveis por essa barbárie.
Acho que também vale uma observação: os seis judeus que eram mantidos reféns foram mortos pelos terroristas. A ministra das Relações Exteriores de Israel, Tzipi Livni, disse estar certa de que os judeus estavam dentre os alvos preferenciais dos ação. O ministro da defesa israelense, Ehud Barak, ofereceu às autoridades indianas ajuda humanitária, de defesa e segurança. Nova Déli, entretanto, recusou a oferta, embora oficiais da Inteligência de Israel já estejam em Mumbai.

PS: em entrevista na noite desta quinta-feira à rede de notícias CNN, o médico e escritor indiano Deepak Chopra culpou a política externa americana pelos atentados. Não há nada mais absurdo, repugnante e estúpido do que essa postura. Matar civis inocentes propositalmente e como "argumento" para qualquer reivindicação política é simplesmente condenável e injustificável. O mundo não deve e não pode relativizar o direito à vida.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Ninguém consegue explicar os ataques na Índia

Existe no momento uma grande confusão sobre a maneira correta de interpretar os atentados na Índia. O grupo Deccan Mujahideen é desconhecido internacionalmente, os métodos usados pelos terroristas são diferentes e mais próximos de um ataque de guerrilha, e os alvos preferenciais parecem ter sido britânicos, americanos e judeus, muito embora a maioria dos mortos até o momento seja de outras nacionalidades, além de indianos atingidos durante a troca de tiros. 

Este já é o maior atentado terrorista desde o 11 de Setembro. Porém, essa variada gama de elementos ainda não é suficiente para estabelecer qualquer conclusão sobre os reais autores das ações coordenadas ou mesmo sua motivação ideológica.

Há uma enorme divergência entre os analistas internacionais. Se por um lado a preferência pelo seqüestro de ocidentais e a complexidade dos ataques podem ser interpretados como característicos da al-Qaeda, por outro ninguém descarta o envolvimento de jihadistas da região da Cashemira. Uma das pistas que podem reforçar essa possibilidade foi o telefonema dado por um dos seqüestradores que se encontram no centro cultural e religioso judaico Chabad.

"Peça ao governo para falar conosco, e nós libertaremos os reféns. Você sabe quantas pessoas foram mortas na Cashemira? Você sabe quantos foram mortos nesta semana?" , disse a um canal de televisão local. 

Os efeitos políticos práticos já podem ser percebidos. Como a relação entre Índia e Paquistão nunca foi das melhores, o primeiro-ministro indiano declarou que não vai admitir que os vizinhos ofereçam abrigo seguro a terroristas que ataquem a Índia. Disse também que vai tomar todas as medidas possíveis para proteger seus cidadãos. 

Em meio à turbulência do grande volume de informações desencontradas, é interessante prestar atenção às declarações do editor internacional da revista Newsweek Fareed Zakaria. Nascido em Mumbai, ele não crê em conexões externas com outros grupos terroristas de maior porte, mas sim num ataque de muçulmanos indianos insatisfeitos. 

"Uma das histórias não contadas sobre a Índia é que a população muçulmana não foi beneficiada pelo boom (econômico) dos últimos dez anos. Ainda existe muito discriminação institucional (contra a população islâmica do país)", diz. 

Para ler a entrevista completa clique aqui.

Entretanto, algumas dúvidas permanecem se a premissa for mesmo a sustentada por Zakaria. Por que americanos e britânicos foram alvos preferenciais? Por que um centro cultural e religioso judaico foi tomado pelos terroristas? 

Vale a lembrança de que Mumbai é o distrito financeiro da Índia e que, além disso, as instituições  atacadas parecem ter sido escolhidas muito mais por seu caráter simbólico do que pelo número de mortos que os ataques poderiam causar. Exatamente como os atentados de 11 de Setembro.