quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O G-20 e o futuro do sistema econômico mundial

No encontro que começa hoje, em Seul, os países que juntos representam 85% da economia mundial têm o enorme desafio de restabelecer a confiança global na competência do mercado. Não se trata de discutir a eficiência do capitalismo, mas perceber que muito de seu simbolismo ficou manchado desde a crise mundial iniciada, justamente, nos EUA. As imagens que percorrem o mundo de jovens britânicos quebrando a sede do Partido Conservador, em Londres, acabam por entrar também no bolo. Não se tratam de protestos periféricos fomentados por grupos que contestam o capitalismo ou organizações de defesa do meio ambiente, mas da revolta daqueles que deveriam representar a esperança no futuro.

Tal manifestação é digna de nota. Como já havia acontecido na Grécia, em 2008, os jovens decidiram protestar contra o violento pacote de cortes divulgado pelo primeiro-ministro David Cameron. Todo o tipo de manifestação é legítima, mas esta me parece ainda mais significativa, na medida em que representa a indignação da próxima geração de trabalhadores com a responsabilidade de pagar a conta de escolhas políticas equivocadas.

E o G-20 pode ter papel fundamental na continuidade desta polarização mundial. O fórum que se pretendia mais democrático por ampliar o antigo G-7 pode se transformar no símbolo mais perverso de uma era de muitas incertezas. Dos países-membros, só a China está rindo à vontade. Mesmo o Brasil - que se orgulha de ter conseguido reverter a certeza da crise - está preocupado porque a valorização do real não é necessariamente positiva. Pode até ser um momento feliz para a classe média continuar a se esbaldar em Miami, mas põe em risco as exportações.

Se Beijing ocupa o papel de vilão por conta do controle sobre o yuan, EUA e os países europeus não podem se sentir confortáveis. Afinal, como lembra o britânico Guardian, foram eles os responsáveis pela ideia de que o livre mercado resolveria todos os problemas da humanidade. Deu no que deu. E, pior, incentivaram a entrada dos chineses no jogo - que fizeram sua própria interpretação das regras e agora não abrem mão delas.

Aliás, os pedidos ao país asiático não se restringem somente à questão do câmbio. Todo mundo vai implorar para que a China incentive o consumo interno. Como escrevi ontem, se o regime disser que vai atender às demandas, mas, no final das contas, decidir não fazer nada, quem poderá lhe aplicar qualquer punição por isso?

O G-20 está hoje preso à própria armadilha que criou. E sem a menor moral para argumentar. Se não bastassem todas as decepções recentes com o mercado, mesmo os países que compõem o grupo acabaram por adotar as medidas que mais condenam; segundo levantamento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), a maior parte deles optou recentemente por leis protecionistas.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

E a China engoliu o mundo

Não há dúvidas de que a China vai ser o grande assunto do encontro dos países do G-20 que começa amanhã, em Seul, na Coreia do Sul. Na prática, a ocidentalização da economia chinesa acabou se tornando um problema. Quando Beijing entendeu que brigar em termos iguais com as grandes potências era um projeto econômico viável, a guerra estava ganha. Isso porque a interferência do governo no câmbio interno provê ao país uma enorme vantagem em relação a todos os outros. Agora parece ser tarde demais. Não acredito que a enorme pressão que se inicia nesta quinta-feira será capaz de frear as ambições da república popular.

A China compreendeu que abrir algumas brechas poderia lhe render frutos ainda maiores. Se mantivesse a economia totalmente fechada, não competiria internacionalmente. Seus dirigentes foram espertos. Não apenas se permitiram "ocidentalizar" as áreas mais favoráveis, como também estão crescendo sem parar graças ao capitalismo de mercado. As estratégias adotadas também contaram com a leitura perfeita deste cenário.

Por exemplo, hoje o país é responsável pelo fornecimento de mais de 90% dos 17 metais e minerais que estão no coração do capitalismo contemporâneo. O material é fundamental na composição de discos rígidos, telas de plasma, bombas, turbinas e toda a sorte de equipamentos tecnológicos. Simplesmente, o planeta se tornou dependente de tais matérias-primas. Por consequência, dependente da China também. Não por acaso, as maiores valorizações das bolsas europeias na última semana foram justamente as das empresas de matérias-primas.

Este não é um evento ocasional. Beijing soube analisar as tendências e entender que colocaria os demais concorrentes no bolso a partir de suas vantagens naturais e da compra de mineradoras em todo o mundo. O regime sabe de sua força e recentemente deu mostras de que está disposto a usar a dependência internacional como forma de fazer exigências geopolíticas. Por conta da disputa com Japão e Taiwan pelas ilhas Senkaku/Diaoyu, o país anunciou, em julho deste ano, cortes na produção. Foi o suficiente para acender a luz amarela em todo o mundo.

Teoricamente, a China não pode usar tais práticas como chantagem. Segundo reportagem da Bloomberg, tal decisão fere compromissos assumidos a partir do ingresso na Organização Mundial de Comércio (OMC), em 2001. Mas aí cabe um questionamento: alguém acredita que a China seria expulsa da OMC?

O pulo-do-gato chinês é justamente investir nesta percepção ambígua que o mundo ainda cultiva a seu respeito. Se não bastasse a dependência de todo o planeta, ninguém sabe ao certo como Beijing reagiria quando pressionada por um gesto agressivo como, por exemplo, a expulsão mencionada acima. Ao manter este perfil um tanto imprevisível, também aumenta sua capacidade de ameaça internacional. É mais ou menos o que o Irã tem feito durante esses anos, com a diferença de que a China é muito superior à república islâmica em todos os quesitos.

As potências ocidentais têm tentado correr atrás deste prejuízo. A verdade é que ninguém havia levado em conta as consequências políticas do poderio econômico de Beijing até a demonstração de força no episódio das ilhas. Alguns líderes mundiais estão procurando se aproximar, casos de David Cameron, da Grã-Bretanha, e do francês Nicolas Sarkozy (que passa a ocupar, inclusive, a presidência do G-20).

Os EUA têm optado por um caminho diferente. O atual giro de Barack Obama pela Ásia também pretende "blindar" aliados diante do poderio chinês. No entanto, todos os gestos do momento são ínfimos se comparados ao status alcançado pela China de protagonista internacional.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

As difíceis escolhas americanas na Ásia

A visita de Obama à Índia mostra a preocupação dos EUA com a Ásia e o Sudeste Asiático. No mundo em transformação, a noção de que as regiões são entidades desconexas se confronta com a realidade. A intenção de fortalecer laços com os indianos na verdade resume os múltiplos interesses em jogo: a guerra do Afeganistão, a luta do Paquistão contra os talibãs, e a percepção da importância da aliança com a Índia num momento em que a China se projeta como potência internacional.

Tudo isso está misturado e conectado de alguma maneira ou de muitas maneiras simultâneas. É esta a complexidade geopolítica do século 21, marca que parece ter vindo para ficar por bastante tempo. A agenda de Obama envolve a necessidade de lembrar aos indianos que os EUA são seus aliados por uma série de fatores: a China inicia seu processo de expansão regional baseada em sua inegável força econômica, militar, estrutural e populacional. Ao mesmo tempo, não se pode contar apenas com a ajuda paquistanesa no Afeganistão. E, para completar, é importante deixar claro que Washington não irá tolerar qualquer disputa na Caxemira que coloque em risco seus principais esforços asiáticos.

Acredito, no entanto, que a questão mais importante no momento é mesmo a China. Frear as intenções de Beijing é fundamental porque este é um problema que acaba caindo na conta da economia americana. Se os republicanos conseguiram mudar a balança de poder interna ao basear parte do discurso na taxa de desemprego atual, o presidente americano responde como pode. E um dos campos onde ainda usufrui de liberdade de ação é justamente a política externa. Evitar a expansão chinesa para os demais países da Ásia pode ser uma forma de fragmentar o potencial econômico regional e impedir, por ora, mais competição para a indústria americana.

"As regiões como elas existem hoje devem sobreviver sob a influência geoeconômica. Os Estados irão se encontrar mais envolvidos numa rede de associações de livre comércio. Na Ásia-Pacífico, a China provavelmente deverá se sentir mais confortável no papel do 'suserano exaltado', uma versão atualizada do tradicional sistema tributário chinês", escreve James C. Hsiung, professor da Universidade de Nova Iorque.

Para barrar este projeto de Beijing, Obama finalmente decidiu visitar a Índia. Topou, inclusive, prometer se empenhar no reequilíbrio de instituições multilaterais, como a ONU - o que poderia também beneficiar o Brasil. O problema é que, para convencer Nova Déli a embarcar no canto americano, será preciso mexer com o também aliado - e problemático - Paquistão.

A fidelidade ambígua de Islamabad é velha conhecida de Washington. Mesmo assim, não se pode abrir mão deste apoio. Seria loucura abandonar à própria sorte um Estado detentor de arsenal atômico que tem o Talibã lhe batendo à porta. Mas a rivalidade entre Índia e Paquistão é histórica e foi reforçada por conta dos atentandos a Mumbai, em 2008. Nada disso, no entanto, impediu os americanos de dar continuidade à transferência de 13,8 bilhões de dólares em equipamentos militares ao país numa parceria altamente incômoda aos indianos.

Acho que este é um dos casos em que impera o maniqueísmo de ambas as partes. Será difícil ao projeto americano seduzir a Índia sem causar prejuízo à relação que os EUA mantêm com o Paquistão. O mesmo raciocínio vale para as relações com o Paquistão. Obama terá de abrir mão de algo neste caso: a estabilidade no Afeganistão ou a influência econômica na Ásia. Qualquer que seja sua escolha, as consequências a longo prazo irão reverberar em todo o mundo. Definitivamente, a sorte não tem acompanhado o presidente americano.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Republicanos e Israel: uma relação nem tão óbvia quanto parece

Para encerrar esta semana especial depois das eleições americanas, acho válido buscar um caminho para entender os rumos da política para o Oriente Médio a partir das grandes mudanças em curso. Na verdade, não há qualquer consenso sobre os caminhos que os republicanos devem adotar após o voto de confiança que restabeleceu ao partido parcela de poder considerável desde a eleição de Obama. Mas vale dizer que não necessariamente as escolhas serão óbvias.

É importante ter em mente que o Tea Party não se dedica à formação de um pensamento internacionalista americano com o mesmo empenho com que debate suas principais plataformas de luta (corte de gastos do governo e redução de impostos). Por isso determinar suas ações em relação à política externa é, neste momento, especulação.

Em relação ao Oriente Médio, acredito que Obama continuará a pressionar Israel a retroceder na construção de assentamentos na Cisjordânia porque este é um tema que interessa à sua carreira política e que, no imaginário popular mundial, pode valer a realização de alguns dos aspectos mais marcantes de sua campanha: mudança e esperança.

Enquanto seria lugar-comum acreditar que os israelenses estariam satisfeitos com a vitória republicana, é bom notar que tal satisfação talvez esteja restrita ao primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu.

"No final das contas, um presidente fraco significa que os EUA também estarão fracos", diz Oren Nahar, editor internacional da Rádio Israel.

A fraqueza a que ele se refere é a mesma que pode satisfazer o premiê israelense; sem a pressão de Obama sobre negociações com os palestinos, teoricamente Netanyahu poderia se concentrar no ponto de sua agenda internacional que mais lhe interessa e onde se sente mais confortável: a discussão sobre o programa nuclear iraniano e a articulação de um ataque às instalações atômicas da república islâmica – empreitada militar que, se levada adiante, contaria com no mínimo auxílio logístico americano.

Mas é importante lembrar que é pouco provável que Jerusalém vire as costas para Washington e decida atacar o Irã sem contar com a aprovação da Casa Branca. Antes que se afirme que o apoio republicano a Israel é óbvio, é preciso levar em consideração alguns pontos: o sinal verde americano passaria pela aprovação de Obama – e os fatos até o momento não levam a crer que o presidente daria tal aprovação – e o republicano George W. Bush, ainda como ocupante do cargo, chegou a ser consultado pelos israelenses e pediu ao então primeiro-ministro Ehud Olmert para não concretizar o ataque.

Além disso, ninguém sabe exatamente como os republicanos ligados ao Tea Party imaginam conciliar o discurso de redução do papel do Estado e cortes do orçamento com o setor de Defesa. As posições são as mais diversas. Alguns de seus mais notáveis membros – como Sarah Palin, por exemplo – não admitem reduzir verbas militares. Mas Mark Meckler, um dos fundadores do movimento, transparece disposição de discutir o assunto num estudo orçamentário mais amplo. Não há consenso, portanto.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A argumentação republicana apresenta brechas que podem ser usadas pelos democratas

Ontem comentei sobre as muitas conquistas de Obama desde que assumiu a presidência, há quase dois anos. Mesmo num espaço de tempo curtíssimo e diante de muitas adversidades, os progressos foram significativos. A massa de votos nos republicanos que mudou a balança de poder na Câmara e no Senado tem mais a ver com a percepção de que o governo não se esforça o bastante. Aliás, o próprio Obama admitiu isso em pronunciamento após a divulgação de boa parte dos resultados.

A estratégia republicana – e do Tea Party, especificamente – foi perfeita. Ela acertou em cheio onde os democratas mais falharam. Convencer a população de que tudo vai mal – mesmo quando isso não é verdade – não costuma ser uma das tarefas mais difíceis (antes que me questionem, a eleição brasileira é um caso distinto, até porque a vida das pessoas mais pobres melhorou substancialmente). O discurso adotado nos EUA sobre tamanho de governo e da carga tributária toca no ponto fundamental: a distinta concepção sobre o papel do Estado. E cada vez mais as posições entre os dois principais partidos americanos diante deste assunto parecem irreconciliáveis.

A vitória eleitoral republicana segue uma equação que se fecha principalmente porque consegue sensibilizar a massa de cidadãos: se há impostos demais é porque o Estado gasta demais; o Estado gasta demais porque ele se preocupa com áreas onde não deveria se meter (por exemplo, a reforma da saúde, uma das principais plataformas políticas de Obama). Dá para entender como este discurso é sedutor para trabalhadores endividados e que ainda se debatem com contas e todo o prejuízo financeiro e material causado pela crise econômica?

Pois é. Não se pode questionar a capacidade republicana de transmitir claramente seu principal ponto de atrito com os democratas. A vitória nas urnas deveu-se, em boa parte, à repetição contínua desta mensagem. Mas não se pode deixar de notar que a conquista apresenta outra face: os candidatos republicanos obtiveram sucesso mais pela decepção com a suposta incapacidade de Obama de realizar as mudanças anunciadas em sua campanha do que por qualquer fidelidade ideológica com o Partido Republicano. A segunda parte da estratégia republicana será apresentar propostas capazes de fidelizar esses eleitores. Sem dúvida, este é o passo mais difícil.

"Os americanos temem que o governo esteja gastando seu dinheiro, da mesma maneira que os europeus se mostram descontentes com a questão da imigração", diz Barbara Martinez, editora do Global Post.

O grande desafio republicano será conseguir mostrar que sabe resolver todos esses problemas. Ou seja, apresentar soluções viáveis e econômicas para reduzir os gastos públicos.

É curioso notar que uma das alternativas oferecidas – diga-se de passagem, durante toda a campanha – é derrubar a reforma da saúde que estendeu a cobertura nacional para 30 milhões de cidadãos. E aí fica a questão: será que esta leva de redução orçamentária também irá atingir a área da Defesa? Acho pouco provável. Ou seja, os interesses da população americana vão ficar em segundo plano, enquanto os gastos militares estarão intocados.

Nesta nova balança de forças nos EUA, a área de política externa pode ser alvo de discussões ideológicas mais firmes, uma vez que a polarização entre os dois partidos tende a aumentar. Os democratas poderão se utilizar dela para questionar as prioridades dos republicanos: as guerras travadas no Oriente Médio ou a acesso à cobertura de saúde mesmo aos americanos mais necessitados? Esta é uma oportunidade para que Partido Democrata encontre um novo caminho de enviar uma mensagem mais clara aos eleitores que votarão em 2012.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Os equívocos democratas e o risco enfrentado por Obama nas eleições de 2012

A derrota do Partido Democrata nas eleições realizadas nesta terça-feira nos EUA aponta uma perspectiva complicada para o presidente Obama. A Câmara dos Representantes passa para controle republicano. Haverá também redução da presença democrata no Senado. Há, no entanto, três importantes vitórias que a Casa Branca pode comemorar: a eleição de Harry Reid, que disputava a vaga pelo estado de Nevada com Sharron Angle, uma das estrelas do Tea Party; a retomada do governo da Califónia, com a escolha de Jerry Brown para o cargo e a reeleição da senadora Barbara Boxer.

Se a derrota ensina muitas lições, há alguns sinais que precisam ser interpretados pelos democratas. O primeiro deles é a vasta incapacidade de comunicar os resultados obtidos pelo governo nesses dois anos. Já escrevi isso antes, mas nunca é demais lembrar que Obama herdou a maior potência do planeta afundada na principal crise econômica desde os anos 1930. Mesmo assim, Washington conseguiu aprovar a ampla reforma da saúde – que passou a incluir 30 milhões de americanos no sistema de cobertura médica.

Os dados são muito importantes, mas o governo não conseguiu impactar os eleitores. Por exemplo, duas das principais acusações dos candidatos republicanos continuam a repercutir como verdade, muito embora não sejam. Plataforma de campanha da oposição, a falta de emprego e a alta de impostos foram fatores fundamentais que contribuíram decisivamente nos resultados apresentados hoje. Como informa o jornalista Michael Cohen, em artigo publicado no AOL News, dois em cada três cidadãos – segundo pesquisa Bloomberg – acreditam que os impostos subiram. Mas, por incrível que pareça, a diminuição da carga tributária atinge atualmente cerca de 95% da população.

Outro pilar de campanha republicana é o aumento do desemprego. De fato, a taxa de 9,6% ainda é alta – muito embora bem menor que em boa parte dos países europeus, por exemplo. Mas, desde janeiro de 2009, a administração Obama conseguiu criar três milhões de postos de trabalho.

Os resultados das eleições foram diretamente influenciados pelo erro estratégico de não comunicar com clareza as grandes vitórias do governo. Outro motivo que explica a mudança de poder nos EUA é justamente o que levou Obama a se eleger. Havia uma enorme expectativa quanto a sua capacidade de interferir positiva e rapidamente na realidade. Não foi isso o que aconteceu, principalmente por conta da urgência que a Casa Branca encontrou para apagar os muitos "incêndios" políticos e econômicos neste curtíssimo espaço de tempo.

Segundo fontes do partido entrevistadas pelo Wall Street Journal, há evidências de uma profunda divisão interna. As maiores queixas giram em torno da falta de empenho pessoal do presidente para eleger os candidatos da legenda, além do erro estratégico no período anterior às eleições, quando o partido passou a acusar os republicanos de receberem ajuda financeira "externa" durante a campanha - de acordo com os entrevistados, esta é uma questão distante das muitas demandas reais dos eleitores.

Se Obama está em falta com o partido, a mesma acusação não pode ser aplicada ao ex-presidente Bill Clinton, que trabalhou bastante durante a campanha. Não custa lembrar que Clinton é o maior adversário político de Obama. Seu empenho não é por acaso, mas suas muitas habilidades já detectaram que a reeleição de Obama em 2012 está longe de garantida. E aí, segundo este raciocínio, nada melhor do que substituir uma esperança por outra; sua mulher, Hillary.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A eleição de Dilma e os desafios internacionais do próximo governo

Depois da campanha mais suja desde o processo de redemocratização, Dilma foi eleita. Todo o processo é repleto de evidências sobre o país que existe hoje. Talvez este tenha sido um dos maiores méritos destas eleições: suas articulações e resultados são uma verdadeira radiografia política do Brasil.

Primeiro de tudo, ficou claro que os meios de comunicação tradicionais não serão os únicos protagonistas no papel de formadores da opinião pública. O efeito que Franklin Martins chamou de "Pedra no Lago" (leia aqui) está com os dias contados. A tendência é que ele desapareça de vez, ainda mais se o governo levar a cabo o projeto de popularização da banda larga.

Apesar de todas as leituras da mídia tradicional brasileira, a imprensa internacional parece ter conseguido entender melhor o significado da vitória de Dilma. Não se trata somente de um cheque em branco dado a Lula, mas da percepção de boa parte da população de que houve melhoria substancial em sua vida. Ao contrário do que muita gente acredita baseada somente em preconceito, as pessoas mais simples também sabem ler o cenário político. Foram elas que optaram não apenas por Lula, mas pela manutenção do projeto.

Dilma obteve vitória esmagadora no Nordeste, por exemplo, não somente graças ao Bolsa Família, mas por dados concretos que mostram aumento de renda e crédito. Em 2008, pela primeira vez na história, a região teve crescimento de 25% e consumiu mais que o Sul. Os programas sociais foram importantes, mas também a melhoria da renda familiar e a alta do emprego. O investimento numa das áreas mais necessitadas do país foi recompensado com a goleada eleitoral.

Deixando de lado preferências eleitorais, é importante que se diga que o Brasil sai fortalecido. A democracia está consolidada, e os acontecimentos mostram uma mudança precoce em sua trajetória. Depois do operário, Dilma irá representar uma virada histórica, emblemática e veloz. Torturada nos porões da ditadura, assume o cargo político mais importante do país somente 25 depois do fim do regime militar. A situação é simbólica; um ciclo que se encerra com a restituição do poder aos que deram a vida pela democracia.

No campo internacional, Dilma enfrentará amplos desafios. Em menos de seis anos, o Brasil deverá ocupar a posição de quinta maior economia mundial. Como já declarou em seu primeiro pronunciamento, seu governo vai continuar a lutar por maior equilíbrio no comércio internacional. Não era preciso dizer com todas as letras, mas fica claro que será mantida a posição brasileira nas disputas na Organização Mundial do Comércio (OMC).

A nova presidente deve manter nos cargos também o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e o assessor especial para a área, Marco Aurélio Garcia. A política externa vai usar o máximo que puder da nova capacidade econômica – e dos números do pré-sal – para requisitar status internacional compatível.

A armadilha particular que Dilma vai encarar atende por Mahmoud Ahmadinejad. Se enveredar pelo caminho da defesa dos direitos femininos – como disse no discurso de ontem quando usou um slogan parecido ao de Barack Obama para se referir ao potencial das mulheres, "sim, a mulher pode" –, vai receber inúmeros pedidos das organizações humanitárias para tratar do tema com o presidente iraniano – especificamente, sobre a situação de Sakineh Mohammadi Ashtiani.

Não acredito que Dilma irá se empenhar nas questões internacionais num primeiro momento. Ao contrário de Lula, ela não se sente totalmente confortável ao discorrer sobre o tema, mas será preciso que se esforce. Afinal, deve provar que a política externa brasileira não é plenamente dependente do carisma do atual presidente. Por isso, Dilma irá acompanhar Lula durante a próxima reunião do G-20, em Seul, na Coreia do Sul, nos próximos dias 11 e 12.

A questão mais importante que chegará a seu gabinete logo de cara interessa a maior parte das lideranças de um planeta sedento por energia. A extração do pré-sal e as definições sobre royalties entre estados e municípios deve ser prioridade no próximo governo. A presidente eleita deixou claro que a riqueza proporcionada pela exploração do pré-sal irá financiar grandes e importantes mudanças sociais no país. A discussão será acompanhada com atenção em todo o mundo e uma das promessas de campanha de Dilma é fazer valer a presença do Estado em todo o processo relacionado ao pré-sal.