segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A eleição de Dilma e os desafios internacionais do próximo governo

Depois da campanha mais suja desde o processo de redemocratização, Dilma foi eleita. Todo o processo é repleto de evidências sobre o país que existe hoje. Talvez este tenha sido um dos maiores méritos destas eleições: suas articulações e resultados são uma verdadeira radiografia política do Brasil.

Primeiro de tudo, ficou claro que os meios de comunicação tradicionais não serão os únicos protagonistas no papel de formadores da opinião pública. O efeito que Franklin Martins chamou de "Pedra no Lago" (leia aqui) está com os dias contados. A tendência é que ele desapareça de vez, ainda mais se o governo levar a cabo o projeto de popularização da banda larga.

Apesar de todas as leituras da mídia tradicional brasileira, a imprensa internacional parece ter conseguido entender melhor o significado da vitória de Dilma. Não se trata somente de um cheque em branco dado a Lula, mas da percepção de boa parte da população de que houve melhoria substancial em sua vida. Ao contrário do que muita gente acredita baseada somente em preconceito, as pessoas mais simples também sabem ler o cenário político. Foram elas que optaram não apenas por Lula, mas pela manutenção do projeto.

Dilma obteve vitória esmagadora no Nordeste, por exemplo, não somente graças ao Bolsa Família, mas por dados concretos que mostram aumento de renda e crédito. Em 2008, pela primeira vez na história, a região teve crescimento de 25% e consumiu mais que o Sul. Os programas sociais foram importantes, mas também a melhoria da renda familiar e a alta do emprego. O investimento numa das áreas mais necessitadas do país foi recompensado com a goleada eleitoral.

Deixando de lado preferências eleitorais, é importante que se diga que o Brasil sai fortalecido. A democracia está consolidada, e os acontecimentos mostram uma mudança precoce em sua trajetória. Depois do operário, Dilma irá representar uma virada histórica, emblemática e veloz. Torturada nos porões da ditadura, assume o cargo político mais importante do país somente 25 depois do fim do regime militar. A situação é simbólica; um ciclo que se encerra com a restituição do poder aos que deram a vida pela democracia.

No campo internacional, Dilma enfrentará amplos desafios. Em menos de seis anos, o Brasil deverá ocupar a posição de quinta maior economia mundial. Como já declarou em seu primeiro pronunciamento, seu governo vai continuar a lutar por maior equilíbrio no comércio internacional. Não era preciso dizer com todas as letras, mas fica claro que será mantida a posição brasileira nas disputas na Organização Mundial do Comércio (OMC).

A nova presidente deve manter nos cargos também o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e o assessor especial para a área, Marco Aurélio Garcia. A política externa vai usar o máximo que puder da nova capacidade econômica – e dos números do pré-sal – para requisitar status internacional compatível.

A armadilha particular que Dilma vai encarar atende por Mahmoud Ahmadinejad. Se enveredar pelo caminho da defesa dos direitos femininos – como disse no discurso de ontem quando usou um slogan parecido ao de Barack Obama para se referir ao potencial das mulheres, "sim, a mulher pode" –, vai receber inúmeros pedidos das organizações humanitárias para tratar do tema com o presidente iraniano – especificamente, sobre a situação de Sakineh Mohammadi Ashtiani.

Não acredito que Dilma irá se empenhar nas questões internacionais num primeiro momento. Ao contrário de Lula, ela não se sente totalmente confortável ao discorrer sobre o tema, mas será preciso que se esforce. Afinal, deve provar que a política externa brasileira não é plenamente dependente do carisma do atual presidente. Por isso, Dilma irá acompanhar Lula durante a próxima reunião do G-20, em Seul, na Coreia do Sul, nos próximos dias 11 e 12.

A questão mais importante que chegará a seu gabinete logo de cara interessa a maior parte das lideranças de um planeta sedento por energia. A extração do pré-sal e as definições sobre royalties entre estados e municípios deve ser prioridade no próximo governo. A presidente eleita deixou claro que a riqueza proporcionada pela exploração do pré-sal irá financiar grandes e importantes mudanças sociais no país. A discussão será acompanhada com atenção em todo o mundo e uma das promessas de campanha de Dilma é fazer valer a presença do Estado em todo o processo relacionado ao pré-sal.

2 comentários:

Anônimo disse...

O texto do Sr. Galsky esclarecedor e informativo como sempre.

Continue firme bravo jornalista!

Saudações,
Daniel Sampaio

Henry Galsky disse...

Muito obrigado, caro Daniel. Volte sempre ao blog.
Um abraço.