quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Consequências possíveis da troca de prisioneiros entre Hamas e Israel

Ainda há algumas análises a serem feitas sobre a libertação de Gilad Shalit e a troca de prisioneiros empreendida após negociação indireta entre Israel e o Hamas. As grandes questões estratégicas que têm sido levantadas dizem respeito às mensagens práticas enviadas pela concretização do acordo. Há duas correntes predominantes: a primeira considera que o número de sequestros a soldados e cidadãos israelenses tende a se tornar comum; a outra acredita que o presidente palestino, Mahmoud Abbas, é o grande perdedor do processo, uma vez que os ganhos através de negociação teriam dado lugar a um incentivo indireto ao caminho da violência.

Em primeiro lugar, desde que a troca foi anunciada, na semana passada, o próprio governo de Israel admitiu que ela só possível graças ao que passou a chamar de “janela de oportunidade”. Eu abordei o assunto no texto da última sexta-feira. Há elementos distintos que compõem este termo, mas um dos mais importantes é justamente o momento de grande popularidade do presidente Abbas. Havia o temor de o acordo ser interpretado como chancela aos métodos de violência e luta armada empregados pelo Hamas em detrimento ao discurso moderado do presidente palestino. Mas, curiosamente, graças ao período de alta desde o pronunciamento na ONU em busca do reconhecimento ao Estado palestino independente, Abbas não está em situação de risco iminente. E, de maneira bastante clara, por mais interessante que seja esta libertação de mil e tantas pessoas, ela não soluciona o impasse do conflito.

Caberá a Abbas deixar isso explícito. E quem assistiu ao seu pronunciamento na Cisjordânia durante a recepção dos presos já pôde notar os métodos que ele vai empregar. Visivelmente constrangido, agradeceu aos esforços do Egito no acordo. O presidente palestino vai tentar esvaziar como puder esta vitória política do Hamas. É claro que a hipótese de um recrudescimento do Hamas existe, mas, como também escrevi na semana passada, este acordo marcou a vitória do pragmatismo – e este é um fato a ser comemorado numa região repleta de ideologia.

Sobre o risco dos sequestros, é claro que ele também existe. Mas acho que ele pode ser postergado, uma vez que a intenção do Hamas é retomar o protagonismo interno e também se firmar como ator internacional legítimo. Patrocinar uma onda de sequestros seria um retrocesso, sob este ponto de vista. A eventual derrocada do governo Assad, na Síria, deixa a aliança regional em que o Hamas está inserido em suspenso por ora. Pode ser que o grupo tente movimentos militares por conta própria, mas este me parece mais um momento de recuo diante dos acontecimentos na Síria e no Irã.

Sob a perspectiva israelense, expliquei o acontecido no texto de ontem. Jerusalém precisou correr os riscos. Há uma reportagem muito interessante do jornal canadense Globe and Mail (leia aqui) que lista o passo-a-passo do processo de construção deste acordo. Um dos trechos da matéria menciona uma declaração de bastidor do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. “Eu me oponho a este acordo, a negociar com terroristas e a libertar terroristas da prisão. Mas não há nenhuma outra maneira de trazer Gilad Shalit para casa e já é hora (de isso acontecer)”. Esta, aliás, tem sido a posição declarada de Netanyahu e acho que não são necessárias maiores análises sobre ela.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A vida humana na balança do Oriente Médio - parte 2

Gilad Shalit está de volta a Israel. A troca de prisioneiros aconteceu como previsto e também libertou parte dos palestinos que estavam em prisões israelenses. Esta não é a primeira vez que o Estado israelense enfrenta os dilemas internos de libertar criminosos envolvidos no assassinato de centenas de civis. Desta vez, os beneficiados pelo acordo indireto com o Hamas foram responsáveis pelas mortes de 599 israelenses. No total, desde a primeira troca de prisioneiros, em 1957, Israel libertou 13.509 prisioneiros em troca de 16 soldados.

No entanto, o que pode soar como fraqueza e ingenuidade me parece ser justamente o oposto. Diante de todo o isolamento político e dos muitos erros estratégicos recentes cometidos pelo governo israelense, esta libertação mostra a força de uma sociedade que valoriza a vida. A vida de Shalit é única e não poderia ser desperdiçada, mesmo com todas as possíveis graves consequências da libertação de presos envolvidos no planejamento e execução de atentados a civis. Depois de muito tempo, esta sociedade – em frangalhos por divisões internas e escolhas políticas duvidosas – deu a demonstração de que não esqueceu alguns dos valores que tornaram o país admirado em todo o mundo. Curiosamente, coube ao Hamas provocar este renascimento.

Em 2004, publiquei um texto que reproduzo abaixo. Na época, o mundo assistia como agora a uma troca de prisioneiros muito semelhante a esta que está em curso. As especificidades, o contexto e os dados são distintos, mas a visão quanto à importância da vida humana permanece a mesma.

“Recentemente Israel e Líbano concretizaram uma troca de prisioneiros histórica. Por trás das manchetes que circulam em todo o mundo, há uma espécie de balança de valores que poderia definir as duas sociedades. A matemática é simples: Israel libertou 436 prisioneiros em troca de apenas um cidadão vivo, três soldados mortos e informações sobre o piloto desaparecido Ron Arad.

Acabo de retornar de Israel. Não sei se há em outro lugar do mundo uma organização como a MIAs, que busca informações sobre oficiais desaparecidos em ação. Desde a fundação do Estado, em 1948, mais de quatrocentos soldados estão sob o status Missing in Action. O caso mais emblemático é justamente o do piloto Ron Arad, capturado em 16 de outubro de 1986 após ejetar-se de seu avião e cair em solo libanês.

O governo de Israel busca, desde então, informações sobre o piloto e pistas para encontrá-lo. E essa foi uma das razões para a efetivação da controversa troca de prisioneiros. De fato, é difícil compreender a libertação de prisioneiros como Anwar Yassin, que, em setembro de 1987, assassinou os soldados Alex Singer, Ronen Weisman, e Oren Kamil. Alex Singer era irmão do jornalista do Jerusalem Post, Saul Singer, que, em coluna publicada no jornal, opina: ‘A razão pela qual temos que trocar tanto por tão pouco é que valorizamos a vida humana e a liberdade de maneira diferente’.

Realmente, é difícil de engolir a recepção que boa parte dos prisioneiros recebeu em Beirute (muitosdos que foram libertados seguiram para os territórios palestinos). Na capital do Líbano uma comitiva que reunia o presidente Emile Lahoud e o líder do grupo terrorista Hezbollah, o xeque Hassan Nasrallah, aguardava os presos recém-libertados. Havia também a presença de muitos jornalistas ocidentais que cobriam o evento e faziam questão de chamar os ex-presos de militantes.

Quando se lida com números, realmente fica mais fácil chamar de militantes as 436 pessoas envolvidas na troca de presos. Mas é difícil aceitar uma definição tão simplista - e até certo ponto romântica - ao examinarem-se as ações que os levaram à prisão em Israel. Um bom exemplo é o caso do libanês Samir Kuntar, que, em 1979, foi o responsável pelas mortes de Danny Hanan, suas duas filhas (de quatro e dois anos de idade) e um policial.

A polêmica criada em Israel foi tamanha que a troca esteve ameaçada de não acontecer até o último momento. Duas associações de vítimas do terrorismo entraram com ações na Suprema Corte. O argumento utilizado pelas duas organizações era de que a troca correspondia a um perigo para o Estado e seus civis. Segundo o representante da organização Vítimas do Terrorismo Árabe, Baruch Ben-Yosef, "centenas de terroristas, incluindo aqueles com sangue nas mãos, não podem ser libertados". Porém, a petição foi negada e a troca se concretizou.

Nos jornais brasileiros, pessoas como Anwar Yassin e Samir Kuntar continuam a ser chamados apenas de militantes. Imagens do reencontro dos terroristas no Líbano com suas famílias podem comover aqueles que não sabem dos crimes que cometeram. É por isso que se faz necessário um exame cuidadoso da ficha de cada um dos 436 presos antes de qualquer avaliação.

Por sua vez, a troca não é um fato a ser comemorado. É apenas mais um capítulo que ensina como cada sociedade enxerga a vida humana de maneira distinta. Enquanto assassinos como Anwar Yassin e Samir Kuntar são recebidos no Líbano com honras de Estado, a sociedade israelense parece estar disposta a pagar um alto preço para ter seus filhos de volta. Mesmo que seja apenas para lhes dar um enterro digno.”

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O suposto plano de atentado iraniano nos EUA

Acabei deixando de fora dos textos de semana passada a suposta descoberta pelas autoridades dos EUA de um plano para assassinar Adel al-Jubeir (foto), embaixador da Arábia Saudita em Washington. Como o assunto ainda está em aberto, vale abordá-lo. Principalmente porque se trata de uma questão estratégica que envolve o quadro maior da grande batalha geopolítica no Oriente Médio entre estados sunitas e xiitas. Já abordei este tema muitas vezes por aqui e este episódio recente é interessante por ser o primeiro caso mais evidente de que, apesar das mudanças que ainda estão acontecendo na região, a lógica de alianças e interesses permanece a mesma, por ora.

Estado majoritariamente xiita, o Irã mantém proximidade com as forças opostas aos interesses americanos (Síria, Hamas e Hezbollah). Neste bloco também estava presente a Turquia. O grande problema para os iranianos é que o governo de Ancara passou a representar um terceiro e importante pilar regional. Graças à grande população, à localização privilegiada, à economia de mercado e à única condição de pertencente à Otan, os turcos se emanciparam. Curiosamente, no entanto, esta singularidade permite que a Turquia se transforme em polo de atração e liderança estratégica. Abertamente jogando pela hegemonia regional, o Irã perdeu demais com este protagonismo turco.

Se este parágrafo não explica totalmente o suposto projeto de atentado em solo americano creditado aos iranianos, talvez sirva para entender o momento interno da República Islâmica. É preciso dizer claramente, entretanto, que a participação do Irã no plano ainda se trata tão somente de uma alegação americana. Mas já há muita gente que argumenta que a realização de um ambicioso atentado no coração dos EUA seria contrário aos próprios interesses da República Islâmica, uma vez que, se concretizado, quase que certamente precipitaria um ataque militar americano.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que a política interna iraniana segue dois caminhos distintos. O primeiro protagonizado pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad; o segundo, pelo hierarquicamente superior a ele, o líder-supremo aiatolá Ali Khamenei. Neste momento exato, as duas principais figuras do país travam silenciosa batalha por poder, deixando aparente a discordância entre ambos. A força Quds, braço da Guarda Revolucionária que estaria por trás do planejamento do ataque em Washington, atua quase como um exército pessoal de Khamenei, tornando quase impossível a execução de qualquer ato desta magnitude sem seu conhecimento ou consentimento.

Ainda é muito cedo para creditar culpas e inocências, mas não se pode excluir a possibilidade de um racha importante no Irã. Esta divisão em alto-escalão pode tomar rumos perigosos, se vier a se manifestar também na belicosa política exterior do país. Existe também a possibilidade de braços armados vinculados ao governo de Teerã terem perdido o controle do discurso que defendem, dando poderes demais a grupos independentes e radicais que não ponderam estrategicamente eventuais operações clandestinas internacionais.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Possível libertação de Gilad Shalit representa a vitória do pragmatismo

Mais de cinco anos após o sequestro do soldado Gilad Shalit, Israel e o grupo radical Hamas incrivelmente alcançaram um acordo. Por mais que seja muito claro que este é um momento de recuo estratégico por parte do Hamas, a nova configuração do Oriente Médio alimenta algum tipo de esperança de futuro. Não se trata de ter esperança num futuro bom ou mais ou menos, mas a simples existência de um amanhã onde cada um siga seu rumo. Acredito na forma como o escritor israelense Amós Oz enxerga o instante posterior à assinatura de um tratado de paz definitivo.

Israelenses e palestinos não serão povos irmãos, sejamos pragmáticos. Há muito rancor, muito lamento e ódio pelas vidas perdidas em cada um dos lados. Por isso, num primeiro momento, Israel e a Palestina serão países que estabelecerão relações como as de um casal recém-divorciado: há sentimentos ruins de ambos os lados, muitas vezes os ex-cônjuges não se suportam, mas, neste caso específico, precisarão aprender a dividir o mesmo apartamento. Cada um em seu cômodo, mas no apartamento apertado que é o Oriente Médio.

O acordo que culminou com a troca de prisioneiros talvez seja um dos primeiros sinais das mudanças regionais ainda em curso. Em primeiro lugar, o Hamas foi obrigado a recuar. Com o rival Fatah em alta internacional, o grupo radical sofreu um golpe duríssimo muito mais grave, inclusive, que qualquer derrota militar imposta por Israel. Na iminência de conquistarem seu Estado, os palestinos puderam reforçar o que todo mundo já sabia: muitas vezes, a arte da política consegue ser muito mais vitoriosa que as campanhas militares. Por mais contraditório que pareça, esta percepção é muito positiva também a Israel.

No mais, a nova configuração regional também se fez presente. Em tempos de Primavera Árabe, os israelenses não poderiam esperar demais. Se hoje contaram com a mediação deste governo transitório do Egito para costurar o acordo de libertação de Shalit, ninguém pode assegurar que nas próximas eleições a Irmandade Muçulmana não saia vitoriosa. E, neste caso, certamente o grupo não estaria disponível para negociar com Israel. Agora, o Conselho Militar que dirige o país precisava apresentar algum tipo de medida razoável ao mundo. Ao sentar para negociar com os israelenses, ganha pontos importantes no cenário internacional.

Até a Turquia, que nos últimos dois anos se transformou numa importante força de oposição ao governo de Jerusalém, apoiou o acordo. Segundo o ministro das Relações Exteriores Ahmet Davutoglu, seu país foi consultado pelo Hamas durante o processo de elaboração do plano. É claro que todo mundo quer se valer do aparente sucesso da iniciativa e Ancara não pode prescindir de influência em nenhum aspecto minimamente importante do Oriente Médio.

Um ponto importante diz respeito às declarações de bastidores e seus significados implícitos. Fontes palestinas que participaram dos diálogos disseram que o Hamas entendeu que era impossível a qualquer um dos lados obter 100% de suas demandas. Ora, esta talvez seja uma das melhores notícias disso tudo. Saber perder é a base de qualquer negociação. E, quando o grupo radical aceita esta premissa, mostra uma flexibilidade completamente oposta a seu discurso. E, para completar, quando aceita negociar com Israel também, na prática, reconhece que o Estado judeu existe como interlocutor. O mesmo raciocínio vale para os israelenses. Apesar de um Estado democrático não poder ser comparado ao Hamas, Israel também não reconhece o grupo como um interlocutor válido. Num cenário de mudança, Jerusalém soube lidar com os elementos que existem na realidade, não com os elementos que deveriam ou não existir.

Li uma frase brilhante na versão online do jornal israelense Yediot Ahronot: “no final das contas, Israel capitulou e o Hamas mostrou flexibilidade”. Acho que esta constatação traduz perfeitamente o resultado desta negociação. E este talvez seja o grande mérito deste processo; forçou os dois lados a lidar com aquilo que é o pior resultado a ambos. E, quando isso aconteceu simultaneamente, os dois lados ganharam. É curioso, não é? Talvez essas conclusões apontem caminhos viáveis no Oriente Médio. É interessante saber os motivos que levaram à conjunção de tantos fatores neste momento. No entanto, os resultados são mais importantes. Neste caso, prevaleceu o pragmatismo – o que, numa região profundamente ideologizada, é uma evolução.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Cristãos e a Primavera Árabe estão em risco no Egito

Os ataques aos cristãos coptas no Egito acendem a luz amarela para o projeto de revolução regional no Oriente Médio. Como tenho escrito, 2011 já é um ano marcante e de mudanças profundas. Por mais que a Primavera Árabe seja realidade inquestionável, este é um processo em curso e que pode ser revertido a qualquer momento. Quando uma minoria religiosa é atacada como aconteceu neste domingo, é preciso atenção. Não somente pelos assassinatos (os números apontam entre 19 e 40 mortos), mas também pelo discurso que cerca o ocorrido.

Os manifestantes faziam uma caminhada pacífica no Cairo em direção à sede da TV estatal. A intenção era protestar contra recentes ataques a igrejas do país. Ao serem informados sobre o que acontecia, funcionários do canal de TV levaram ao ar uma mensagem perigosa convocando a população a atacar quem tomava parte do protesto sob o argumento de que “a multidão procurava enfraquecer a unidade nacional”. A partir daí, os ânimos acirrados trataram de pôr em prática a violência e dar um fim trágico à manifestação.

É estranho perceber que os mesmos militares encarregados de derrubar o ex-presidente Hosni Mubarak decidiram fazer valer alguns de seus conceitos mais conhecidos. Nos tempos de Mubarak, os únicos protestos permitidos eram os que tinham Israel como alvo. Quando a Primavera Árabe tomou corpo na Praça Tahrir, há apenas oito meses, esses mesmos militares largaram o presidente e se juntaram à população comum – que lutava por liberdade, democracia, e, também, pelo direito de protestar livremente. O que aconteceu desde então?

Na época dos protestos, escrevi que a derrubada de Mubarak só foi possível graças à adesão das forças armadas. Se o poder coercitivo tivesse permanecido fiel ao ex-presidente, um banho de sangue teria acontecido e, muito possivelmente, a violência teria se expandido por todo o país. Estrategicamente, e não por questões ideológicas, não se enganem, os militares mudaram de lado. Principalmente, porque enxergaram uma oportunidade de alterar a balança de poder nacional. Ou, pelo menos, de se desvincularem de um líder já desgastado por 30 anos de mandato forçado. No Egito, as forças armadas exercem um papel na vida cotidiana que extrapola a posição de defesa das fronteiras e da manutenção da soberania. São um dos principais agentes econômicos, tendo inclusive o controle de empresas de segmentos diversos do mercado (desde a fabricação de equipamentos militares a liquidificadores para uso doméstico).

É difícil controlar os limites do poder militar. Principalmente numa sociedade onde a participação das forças armadas é historicamente fisiológica como no Egito. Na semana passada, o Conselho Supremo – órgão criado pelos militares para governar o país “temporariamente” após a queda de Mubarak – emitiu declaração dando conta de que pretendia adiar as eleições (inicialmente planejadas para abril do ano que bem) e realizá-las somente no início de 2013. Acho que o caso egípcio pode ser um termômetro da situação da Primavera Árabe. Se o Conselho Supremo permanecer no poder por tempo indeterminado, as esperanças de que o movimento popular represente uma quebra de paradigma podem ir por água abaixo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Favoritos não levam o Nobel da Paz

Havia grande expectativa em relação ao anúncio do vencedor do Prêmio Nobel da Paz. Todo mundo que tem alguma proximidade com política internacional esperava muito da premiação, já que, como tenho escrito, 2011 é um desses anos que mudam o rumo da história. A comissão julgadora responsável pela eleição sabe que o Nobel da Paz é o mais político dos prêmios. Muito embora qualquer escolha seja sempre política, especialmente o Nobel da Paz é diferente dos demais.

Ao contrário dos prêmios mais técnicos – focados em grandes descobertas e avanços –, o Nobel da Paz dá uma espécie de chancela a determinadas causas. Ou, ainda, ratifica rumos e aponta caminhos. Por exemplo, quando Obama foi o vencedor, em 2009, a justificativa era de que seus esforços para a redução dos arsenais nucleares haviam sido reconhecidos. O prêmio foi concedido por isso também, mas a explicação não se restringe a esta linha meramente formal.

O Comitê Nobel fez uma análise do cenário internacional e mandou seu recado. Na época, havia grande preocupação com uma nova corrida nuclear, a ameaça real de um confronto direto entre EUA e Israel, de um lado, e o Irã, de outro. Fora as tentativas comandadas pelo próprio Obama de reaproximação com os russos e o resultado prático de frear a competitividade atômica entre os dois países. Mais além de tudo isso, a representatividade do presidente americano, um voto de garantia simbólico de que ele deveria ser mais ousado na liderança geopolítica internacional e que tivesse o pacifismo e o multilateralismo como bases de ação. O Nobel era um prêmio antecipado por Obama não ser Bush, para ser bastante claro.

No entanto, agora, o Comitê recuou. Diante do maior número de concorrentes inscritos, num dos anos mais importantes e representativos para o pacifismo, o prêmio foi dividido não entre os protagonistas da Primavera Árabe ou dos muitos movimentos sociais em curso, mas entre figuras menos relevantes, sob o ponto de vista do simbolismo político. As vencedoras (foto) foram Ellen Johnson Sirleaf, presidente da Libéria, a ativista Leyma Gbowee, também da Libéria, e Tawakkul Karman, do Iêmen, ativista pró-democracia (a primeira mulher árabe a receber o prêmio). Por mais que esta última seja representante das manifestações populares nos países árabes, o Comitê perdeu a chance de reconhecer a importância deste movimento na plenitude.

Havia duas opções óbvias que, se escolhidas, teriam dado ainda mais sentido a este momento raro em que a luta popular democrática conseguiu resultados práticos nos países árabes: o já morto Mohamed Bouaziz, o vendedor ambulante que ateou fogo ao próprio corpo em dezembro de 2010 na Tunísia quando seu material de trabalho foi confiscado dando início aos protestos; Ou Wael Ghonim, executivo egípcio do Google e um dos principais articuladores das manifestações no país. O Comitê Nobel perdeu uma grande chance de demonstrar seu apreço a um movimento ainda em curso e reconhecer sua importância na construção de um mundo mais democrático e na transformação de um região um tanto problemática.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Occupy Wall Street e o simbolismo de 2011

Os protestos populares em Nova Iorque reafirmam um ano repleto de mudanças e simbolismos. Durante a semana passada, quando o presidente palestino Mahmoud Abbas esteve na mesma cidade para pedir o reconhecimento da ONU a um Estado palestino, escrevi muito sobre simbolismos e significados. A conclusão a que tentei chegar – e os argumentos que usei ao longo deste ano – apresentam a minha visão pessoal sobre o assunto. E, pelo menos para mim, fica muito claro que existe uma interpretação um tanto distorcida sobre este assunto, na medida em que há uma espécie de consenso de que o simbólico vale muito menos.

A minha dúvida é bastante prática: o simbolismo vale menos quando comparado a que exatamente? Se comparado a leis estabelecidas, o que é simbólico pode até valer menos sim. Mas talvez esta inferioridade seja temporária. O ano de 2011 é bastante representativo. Quando manifestantes na Tunísia e no Egito tomaram as ruas e protestaram contra as inúmeras regras estabelecidas e vigentes há décadas, jamais imaginariam que poderiam provocar tantas mudanças. Até o momento em que ficou claro que seus países estavam parados pelos protestos, eles não tinham nada em troca. Era, portanto, uma batalha meramente simbólica, quando se leva em conta que o simbólico é também uma oposição ao que é concreto – pelo menos na definição dos que acreditam que o simbolismo está numa escala inferior.

E aí chegamos aos protestos em Nova Iorque. Há muitos simbolismos importantes nessas manifestações. O primeiro deles é que mostra a força do povo americano que, finalmente, acordou diante da crise. Se por um lado o governo Obama é alvo dos protestos, pela primeira vez desde o surgimento do Tea Party – o movimento ultraconservador de direita – a oposição popular aos desmandos do mercado tomou as ruas. E, com muita precisão, escolheu, simbolicamente, o centro dos problemas recentes da população comum dos EUA. Como não culpar a voracidade de Wall Street pela crise financeira? Como esquecer a enorme ajuda financeira governamental repassada aos bancos, enquanto as pessoas, através de seus impostos, assistem à Casa Branca destinar o resultado do trabalho real a bônus de executivos financeiros?

O que está acontecendo agora não é apenas justificável, mas também natural. A corda foi esticada a tal ponto que era previsível que isso fosse acontecer. Curiosamente, 2011 também é o ano da retroalimentação. Artigo da revista Time defende que as atuais manifestações nos EUA são a continuidade dos acontecimentos populares em Madri. Esta afirmativa é parcialmente correta porque não se pode atribuir este movimento a apenas um outro. Como este ano profundamente simbólico – e alguém ainda duvida do poder do simbolismo? – tem mostrado, os movimentos estão todos encadeados. O que está em curso em Nova Iorque neste momento está vinculado a Madri, mas também às manifestações por reformas democráticas nos países árabes, à luta da população israelense contra o alto custo de vida no país, aos protestos contra as medidas de austeridade na Grã-Bretanha e na Grécia. Isso sem falar na Revolução Laranja, levada adiante pela população ucraniana, entre 2004 e 2005.

O encadeamento histórico é curioso mesmo. Havia a impressão de que todas as ideologias estavam relegadas ao século vinte. Isso pode até ser verdade, mas este ano tem deixado claro que, por mais que as pessoas não estejam fechadas em torno de um slogan ou de um partido, elas estão dispostas a ir às ruas para lutar por direitos a que não têm acesso (como no caso das populações dos países árabes) ou contra injustiças cometidas no próprio sistema democrático em que estão inseridas (casos dos movimentos populares de Europa e Israel).