quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Referendo no Sudão é o primeiro grande desafio político e humanitário de 2011

O primeiro grande evento do próximo ano já tem data para acontecer: 9 de janeiro. Neste dia, o mundo vai saber se o Sudão vai mesmo se dividir em dois. Na verdade, é muito grande a possibilidade de que o projeto de independência do Sudão do Sul se torne realidade. Este não é um evento despropositado, mas estabelecido há cinco anos, quando um acordo conseguiu encerrar 22 anos de guerra civil no país. No centro de toda essa história, um elemento muito conhecido: a disputa sangrenta entre o norte - muçulmano - e o sul - cristão.

Foto: eleitores se registram para votar no referendo

Levando-se em consideração que o presidente do país é o genocida Omar Hassan al-Bashir, é muito pouco provável que este processo se consuma sem qualquer incidente. E ao lembrar que o número total de mortos em Darfur passa de 300 mil, usar o termo "incidente" soa hipócrita, admito. Até porque Bashir já fez questão de deixar claro que não considerará válido o resultado do pleito.
Mais ainda, o presidente sudanês disse em pronunciamento oficial neste domingo que pretende adotar a lei islâmica, a sharia, como fonte única da constituição, caso a secessão se confirme. Ou seja, Bashir quer alimentar ainda mais as diferenças religiosas. A situação pode piorar, como sempre. Grandes países muçulmanos da região, Egito e Líbia já se colocaram contrários à divisão do país. O presidente egípicio, Hosni Mubarak, teme ter o acesso ao Nilo prejudicado; Muammar Khadafi diz acreditar que a criação do Sudão do Sul pode assustar investidores e incentivar novos movimentos separatistas no continente.

Na prática, nenhum dos países quer ficar alheio ao processo. Egito e Líbia estão profundamente incomodados por não serem protagonistas nesta questão. Ao apoiar Bashir, pretendem marcar posição. Ainda mais porque a existência deste novo Estado de maioria cristã conta com o apoio das potências ocidentais.

Ninguém sabe o que pode acontecer após a declaração de independência do Sudão do Sul, mas considero provável que se repita o fenômeno do deslocamento populacional. Como há minorias religiosas dos dois lados, não é impossível imaginar que elas decidam correr em sentido contrário, em busca dos países onde são maioria. Não seria a primeira vez que a humanidade assistiria a algo do tipo. E tampouco creio que esta eventual marcha aconteça sem sustos, a não ser que organismos multilaterais garantam a segurança dos deslocados.

Nunca é demais lembrar que, em agosto de 1947, Índia e Paquistão protagonizaram fenômeno semelhante. Com o fim do domínio colonial sobre o subcontinente asiático e a criação dos dois países, muçulmanos que viviam na Índia e hindus do Paquistão se realocaram. Assutados com a possibilidade de serem minorias nos novos países, seis milhões de muçulmanos deixaram a Índia, e oito milhões de hindus, o Paquistão. Esta grande troca populacional deixou dois milhões de mortos pelo caminho.

Considerando o histórico recente do Sudão, a confirmação de um cenário trágico como o descrito acima é sempre uma possibilidade bastante real.

2 comentários:

Anônimo disse...

Caso a separação seja aprovada no referendo como passará a se chamar o Sudão do Sul ?

Têm essa informação ?

Já que provavelmente não irão querer usar o mesmo nome do país que domina o sul de forma totalitária.


Cristian S.

Henry Galsky disse...

Olá, Christian. Vai se chamar Sudão do Sul mesmo.
Um abraço.