terça-feira, 29 de julho de 2014

Mais uma vitória para o Hamas

Este foi o segundo parágrafo do meu post de sexta-feira, comentando sobre a decisão brasileira de retirar seu embaixador de Tel Aviv:

“Para ser bem sucinto, o Brasil não é um anão diplomático. Até a própria imprensa de Israel reconhece isso. Com a ampliação de sua economia e dos esforços internacionais do governo Lula, seu protagonismo internacional também aumentou. Tanto que o país é liderança regional indiscutível. E se países isoladamente não fazem grande diferença – pelo menos a maioria deles, claro – , ninguém há de desprezar um continente inteiro. Como lembrou o Jerusalem Post, quando o Brasil reconheceu a formalização de um Estado palestino, em 2010, outros sul-americanos fizeram o mesmo”.

Como era esperado, a decisão brasileira foi seguida por outros países do continente americano. Nesta terça-feira, Chile e Peru decidiram retirar seus embaixadores de Israel. Na prática, há pouco impacto para a economia ou as decisões geopolíticas de Israel. A questão é o poder simbólico envolvido. 

Desde o início desse conflito, venho dizendo que há um esforço das partes para revalidar suas agendas. Israel quer manter seu poder de dissuasão e aproveitou para impor o maior dano possível à infraestrutura do Hamas, especialmente aos complexos túneis subterrâneos que dão ao grupo a capacidade de receber armamento e também se infiltrar em território israelense. O Hamas reforça sua posição de resistência (termo sobre o qual escreverei num próximo post) e busca legitimidade interna e externa como ator regional não-estatal relevante. Além disso, reafirma sua posição histórica de não aceitar a continuidade da existência de Israel, seja agora, seja por meio de conversações futuras. 

E aí retorno ao ponto da decisão dos países sul-americanos de retornar seus embaixadores em Israel. Quando fazem isso, de certa maneira fazem o jogo de longo prazo do Hamas. Como venho escrevendo, o grupo palestino sabe que, ao menos hoje, não tem capacidade militar de “destruir Israel”, como pede em sua carta de fundação. Se isso não é possível por razões óbvias, esvaziar as alianças israelenses e isolar o país do restante da comunidade internacional é um passo importante. 

2 comentários:

Érika Neuschwang Regato disse...

Muito bom ler sua opinião sensata e racional, Galsky! Nos últimos dias, mais do que nunca, o Carta & Crônica tem sido um ótimo meio de informação a respeito da política e, sobretudo, dos conflitos internacionais.

Henry Galsky disse...

Muito obrigado pelo comentário, Érika. Tenho tentado analisar cenários de uma maneira mais ampla. Fico feliz que esteja gostando.
Um beijo.