quinta-feira, 21 de maio de 2009

Irã nuclear: não há mais tempo para ingenuidade

Nesta semana quase integralmente dedicada aos desdobramentos do encontro entre Benjamin Netanyahu e Barack Obama, o Irã ocupa o centro do debate internacional. Não apenas por conta do bem sucedido lançamento de seu mais novo míssil de longo alcance, mas pelo início da campanha eleitoral no país e também por mais uma declaração polêmica do presidente – igualmente em campanha – Mahmoud Ahmadinejad.

A verdade é que poucos veículos deram a devida atenção, mas o presidente iraniano mostrou mais uma vez seu desprezo pelo ocidente. Num pronunciamento em que lembra com orgulho a controversa participação na conferência contra o racismo, Ahmadinejad disparou:

“Todos testemunhamos os europeus isolados. Eles colocaram seus ‘rabos nos ombros’ e deixaram a sala, mas outros países apoiaram o Irã”, disse.

Antes que ocorra um grande mal-entendido, a expressão ‘rabos nos ombros’ em persa é o equivalente ao nosso “colocar o rabo entre as pernas”.

Definitivamente, essas não são as palavras usadas por alguém cujo objetivo é resolver os problemas com o ocidente.

Tendo em mente esta informação, como evitar que o Irã se torne nuclear?

Ninguém analisou a situação com mais propriedade do que John P. Hannah, em artigo no Washington Post. Sem vícios de origem – ele é membro do Instituto de Políticas do Oriente Médio na capital americana e foi conselheiro do ex-vice-presidente e odiado internacional Dick Cheney entre 2005 e 2009.

Mas sua análise tem propriedade. Ele foi o primeiro a buscar entender a crise atual a partir de casos semelhantes ocorridos no passado. Por mais que não seja uma ciência exata, este exercício pode ajudar na busca de alternativas. Mais que isso, mostra que não resta outra opção a não ser aguardar os resultados das eleições iranianas, em 12 de junho.

“Estados hostis tendem a aceitar o processo de desnuclearização como resultado de uma mudança de regime, diplomacia coercitiva ou ações militares, não a partir de apelos dos EUA por respeito mútuo”.

“Considere os fatos: a África do Sul abandonou seu arsenal nuclear em 1990 somente após o fim do apartheid. Bielo-Rússia, Cazaquistão e Ucrânia fizeram o mesmo depois que se tornaram países independentes graças ao colapso da União Soviética”.

“Nos anos 1980, a decisão de Brasil e Argentina de interromperem seus programas nucleares estava ligada à transição de ditaduras militares para democracias liberais”.

Considero esta análise perfeita. No caso iraniano, não há fórmula mágica ou sonhos idílicos de que num momento qualquer o país irá abrir mão de suas pretensões militares regionais em troca de uma cerimônia pomposa e midiática em Camp David.

As opções são claras. Quem deseja um Irã sem armas nucleares deve torcer para a derrota de Ahmadinejad. Caso isso não ocorra, o realismo nas relações internacionais já diz quais as alternativas: ação militar ou isolamento econômico do país.

3 comentários:

Paulo Lerner disse...

Saiu uma análise muito interessante no Haaretz de possíveis desdobramentos de um ataque isralense. Dá uma lida.

Irã nuclearizado é uma ameaça maior aos outros países arábes que não tem deterence power.

HERIBERTO disse...

TITULOS NOS JORNAIS NO DIA :

AVIAÇÃO ISRAELI DESTROI INSTALAÇÕES NUCLEARES DO IRAN

COMO VAI REACCIONAR O MUNDO ARABE
E POSSIVEL MEDIR, PREVER AS MEDIDAS
DE RETALIAÇÃO ???

HERIBERTO ROSLER

Henry Galsky disse...

Obrigado Paulo e Heriberto.
Sobre a reação dos países árabes, é bem possível que os sunitas - Egito, Arábia Saudita, Jordânia e Marrocos - não atrapalhem uma possível ação militar israelense. Não creio que eles irão ajudar de alguma maneira, mas, como disse o Paulo, eles estão muito incomodados com as pretensões de hegemonia regional do Irã. Escrevi um texto interessante sobre isso na segunda-feira passada, dia 11 de maio.
Grande abraço!