segunda-feira, 4 de maio de 2009

Para sorte de Lula, Ahmadinejad não vem mais

O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, cancelou a visita que faria ao Brasil nesta quarta-feira. Segundo explicação oficial, o motivo teria sido a relativa proximidade das eleições no Irã, em 12 de junho. Que ninguém leve a sério este argumento. A data do pleito está marcada há muito tempo. Usá-la como explicação é ingenuidade das autoridades políticas de Brasil e Irã.

Entretanto, segundo o portal Terra, fontes do governo brasileiro afirmam que Ahmadinejad teria reclamado da pouca deferência oficial à visita, além da ausência de “uma postura mais proativa do governo Lula em defesa das relações Brasil-Irã”.

Se este foi real motivo, ponto para Lula. Até porque ainda falta muito para convencer quais seriam os ganhos reais do Brasil com a presença de um líder de Estado preconceituoso, polarizador e que está longe de contribuir de alguma maneira com os preceitos que regem a política externa brasileira.

A verdade é que, diante da enorme polêmica causada pela visita, Lula deve estar respirando aliviado – muito embora o subsecretário-geral de Assuntos Políticos do Itamaraty, Roberto Jaguaribe, sustente que uma nova data deve ser acordada. Porém, como ninguém sabe quais serão os resultados das eleições iranianas, existe até a possibilidade de Ahmadinejad não pisar em solo brasileiro. Ainda bem, diga-se de passagem.
Ninguém pode afirmar se os protestos realizados em Rio de Janeiro e São Paulo – organizados pela comunidade judaica e grupos de direitos humanos e homossexuais – foram fundamentais ou mesmo contribuíram para a decisão do governo do Irã. Mas fica difícil negar a associação, uma vez que o anúncio do cancelamento acontece justamente no dia seguinte às manifestações. De qualquer forma, sorte da política externa brasileira. A visita do presidente iraniano seria um declive considerável num momento de ascensão.
Por melhores que fossem as intenções – e não eram, sejamos claros – de trazer Ahmadinejad para o diálogo, não é preciso recebê-lo por aqui para questioná-lo sobre sua posição em relação a terrorismo, direitos humanos e Holocausto. Até porque, se este fosse o motivo central da visita – e não era, sejamos claros novamente – o presidente iraniano jamais teria aceitado o convite.
O Brasil quer ser um ator internacional considerado. E não há nada de errado com isso. Se o mundo de hoje não permite a simplificação das relações entre os países, é preciso fazer uma leitura clara e direta dos acontecimentos. Aliar-se a um líder de Estado cujo fundamento internacional é a busca pelo confronto, o fomento ao terrorismo, o desrespeito às minorias e à memória histórica do ocidente é no mínimo equivocado.
Posicionar-se contra essa diretriz não é um sinal de fraqueza, mas de inteligência. E não se trata apenas de estratégia política correta. Mas também de respeito e transparência com o povo brasileiro.
Acho que ao longo desta semana haverá ainda muita especulação sobre os reais motivos que causaram o cancelamento da viagem de Ahmadinejad ao Brasil. Mas só resta a Lula comemorar a decisão e evitar que essa saia-justa se repita no futuro.

3 comentários:

Eshor disse...

Uma escrita que facilita a compreensão do leitor e trata de temas complexos de uma forma muito objetiva. Parabéns pelo texto.

Eshor

Henry Galsky disse...

Obrigado, Shor. Mais ainda, obrigado pela leitura

Bruno Ruivo disse...

Menos prudente que o Carta & Crônica, a comunidade judaica já tratou de comemorar a vitória, como se os seus protestos tivessem sidos diretamente responsáveis pela mudança de planos. É possível, e seria lisonjeiro pensar assim, mas empiricamente é complicadíssimo produzir prova. E mesmo que seja verdade, uma vitória tão repentina pode ser muito deseducativa. Cadê o pessimismo na análise e o otimismo na vontade?