segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Tensão e chá-de-cadeira. Ahmadinejad no Brasil

Sou o primeiro jornalista a chegar à Esplanada dos Ministérios, em frente ao Palácio do Itamaraty, em Brasília. Um grande espaço cercado por cones foi reservado para os protestos. A previsão era de mais de 300 pessoas que seriam favoráveis ou contrárias à visita do polêmico presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, ao Brasil. Por volta das 9h40, chega o primeiro grupo de manifestantes. São seis ao todo e vieram para prestar apoio à presença do líder do Irã.

Acelino Ribeiro é coordenador do Movimento Democrático Direto (MDD) e, por mais contraditório que pareça, vê na figura de Ahmadinejad um pacifista. Para ele, o presidente do Irã representa a luta contra o imperialismo americano. Ao mesmo tempo em que conversamos, seus quatro correligionários acenam positivamente com a cabeça. Acelino me explica que existe uma grande manipulação da mídia e, ao contrário do que todo mundo pensa, Ahmadinejad faz parte de um grupo de autoridades internacionais cujas palavras são seguidamente distorcidas pela imprensa. Este grupo inclui o ditador norte-coreano Kim Jong-il, o ditador líbio Muamar Kadafi e os presidentes Chávez e Evo Morales, aqui na América do Sul.

Logo em seguida, aproxima-se Faraj Hassan Ali, presidente do Comitê de Solidariedade ao Povo Palestino. Com a camisa negra castigada pelo sol de Brasília, ele admite que a passeata foi organizada às pressas, ao saber da presença de manifestantes contrários à visita do controverso presidente. Pergunto a ele o que pensa sobre as declarações de Ahmadinejad sobre "varrer Israel do mapa" e de que "desconhecia a existência de homossexuais no Irã".

"Todas as religiões combatem o homossexualismo. A imprensa usurpa as declarações do presidente do Irã", diz. "Acho que o processo de paz no Oriente Médio morreu. A única solução é mesmo acabar com o regime sionista israelense", completa, mesmo que suas declarações sigam na contramão da posição oficial da Autoridade Palestina.

A essa altura, já há duas ou três faixas pregadas no gramado da Esplanada dos Ministérios. "Brasileiros e palestinos saúdam o presidente Ahmadinejad e Lula e desejam vida longa por lutarem contra o imperialismo (EUA) e o sionismo (Israel)".

Já está claro que o conflito do Oriente Médio vai travar por aqui um de seus capítulos. Mesmo que as armas sejam os slogans de sempre.

O major Franco, coordenador de segurança pública encarregado, informa que o efetivo é maior do que o empregado normalmente. É fácil perceber a tensão nos rostos e ela é quase palpável no ar.

No palco da solenidade, nos salões do Ministério das Relações Exteriores, jornalistas correm para obter suas credenciais. O da Al-Jazira discute para entrar. Mal-sucedido, corre de volta para o gramado e entrevista os manifestantes pró-Irã. Uma questão de público alvo.

Por volta das 11h, começa a chegar o grupo dos opositores a Ahmadinejad. Eles vestem lenços verdes, em alusão a cor símbolo dos protestos aos resultados das últimas eleições presidenciais no Irã. Por aqui, no entanto, o líder do movimento é corretor de imóveis e mora em Goiânia. Faltou ao trabalho para protestar contra o programa nuclear do governo de Teerã e à intolerância contra homossexuais, membros da fé Bahai e dissidentes políticos praticada no país do Oriente Médio. "Aqui Não" é o nome dado ao protesto.

"Não somos contra o povo iraniano. Mas não podemos ser coniventes à censura que se pratica por lá. Acho que estamos tendo sucesso, já que conseguimos marcar presença em manifestações realizadas em 15 estados", diz Natan Cunha.

Um das pontas da faixa onde se lê "os membros da fé Bahai são perseguidos e mortos no Irã" é segurada por um menino de apenas 12 anos de idade. Ele está perdendo aula e diz que está aqui porque seu tio é um dos organizadores do evento. Mas, com tremenda rapidez de raciocínio, mostra ter aprendido direitinho os argumentos para condenar Ahmadinejad.

"Ele quer enriquecer urânio para fazer a bomba atômica. Não podemos deixar", afirma.

No meio da multidão, dois ex-servidores da Aeronáutica são os que atraem mais curiosidade. Reivindicam a reincorporação na força e levantam o público ao clamar por democracia. Depois deste episódio, os dois grupos de manifestantes parecem deixar a inércia e voltam a gritar seus slogans.

No caminho para o Palácio do Itamaraty, um homem moreno filma a passeata. Ao me aproximar, pergunto para qual empresa ele trabalha. Num inglês ruim, diz que só fala farsi - o idioma iraniano - e não está autorizado a conversar.

Na porta de entrada do Ministério das Relações Exteriores, constrangimento. Um manifestante pró-Ahmadinejad é barrado. Revoltado com a situação, questiona a funcionária do MRE: "Por acaso você é judia?".

No salão principal do Itamaraty, jornalistas e fotógrafos se acotovelam. Lula e o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, conversam ansiosos à espera de Ahmadinejad. O presidente tenta descontrair e comenta sobre a rodada deste domingo do Campeonato Brasileiro. "Eu queria ter sido ponta-de-lança", brinca.

Os Dragões da Independência tomam posição. Nas ruas, a multidão grita palavras de ordem e as sirenes de carros oficiais apressados são acionadas. Mahmoud Ahmadinejad salta sorridente e sua comitiva caminha a passos lentos em direção a Lula e Amorim. Os presidentes se abraçam, posam para fotos e entram rápidos para reuniões a portas fechadas.

Só reaparecem novamente mais de duas horas depois. O encontro com a imprensa estava previsto para as 12h30, mas só começa às 15h22. Os jornalistas comentam que a distância entre as cadeiras de Lula e de Ahmadinejad é maior do que de costume. O presidente brasileiro bate repetidamente os dedos na mesa enquanto conversa baxinho com Celso Amorim.

Ao ser convocado para o pronunciamento oficial, Lula faz um discurso protocolar, com cada palavra sendo dita de forma a não provocar ainda mais eletricidade. Nada pode dar errado e o governo brasileiro não apresenta qualquer surpresa. Defende a obtenção de energia nuclear para fins pacíficos, celebra a diversidade étnica e religiosa no Brasil e reafirma a posição brasileira de buscar a paz no Oriente Médio. O que talvez constranja o líder iraniano é Lula lembrar a recente visita do presidente Shimon Peres ao Brasil. O presidente brasileiro mais uma vez se diz favorável à criação de um Estado palestino capaz de conviver ao lado de Israel sem ameaçar a existência e a segurança do Estado judeu.

Ahmadinejad discursa sobre as semelhanças entre Irã e Brasil e condena a ordem mundial que, segundo ele, pretende acabar com as características individuais dos países. Diz que o capitalismo é um fracasso e que há um plano para atacar as culturas autóctones. Ahmadinejad cutuca Israel ao afirmar que o sistema nascido após a Segunda Guerra Mundial já não funciona mais. Lula boceja e o ministro da Indústria e Comércio, Miguel Jorge, rodopia o celular sobre a mesa.

O clima de tensão parece ter ficado do lado de fora. Até porque existe uma simbiose entre as partes. Lula defende o direito iraniano de prosseguir com o programa nuclear; Ahmadinejad diz que o Conselho de Segurança das Nações Unidas deve mudar e incluir um assento permanente para o Brasil.

O clima ameno só é quebrado quando um jornalista questiona o governo brasileiro por mediar um tema tão polêmico. Lula se irrita um pouco e diz que a pergunta já foi respondida. Ahmadinejad pede a palavra e em dez longos minutos explica o programa nuclear de seu país, ao mesmo tempo em que mais uma vez culpa a imprensa por distorcer suas declarações, afirmando ter sido dele a iniciativa de trocar urânio enriquecido no Irã por combustível - a proposta não seria de Estados Unidos, Europa, Rússia ou ONU, como se acreditava anteriormente.

A repórter iraniana - da agência de notícias oficial do país - desperdiça a oportunidade e pede a Lula para que ele apresente sua visão acerca da ordem mundial. Lula ri e resume tudo o que seu discurso já explicara na abertura da coletiva. O próprio presidente encerra o evento: "Eu não sei quanto a vocês da imprensa, mas eu ainda não almocei", diz. Entre risos e aplausos, a entrevista termina sem grandes novidades, a não ser o anúncio da visita do presidente brasileiro a Teerã, entre abril e maio do ano que vem.

4 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom, Henry. Revoltante a foto de Ahmadinejad aos sorrisos com Lulinha Paz e Amor.
Abs
EShor

Anônimo disse...

Sr. Henry,
Parabéns pelo texto muito bem escrito com diversas informações e opiniões.

Att
Artur A. Coimbra

Marcos disse...

Parabéns Henry. Belo trabalho!

Henry Galsky disse...

Obrigado, pessoal. Fico feliz que tenham gostado. Foi ótimo ter feito essa matéria