quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

China, o programa nuclear iraniano e o Brasil

No intricado tabuleiro de xadrez envolvendo as decisões sobre o programa nuclear iraniano, a China talvez seja a peça mais importante. Por dois motivos: primeiro, como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU - órgão que vai colocar em votação as exigências americanas e europeias de aplicar sanções ao Irã -, a República Popular tem direito a veto. Segundo, porque as recentes divergências com Washington devem levar o país a exercer este direito. Aliás, as autoridades de Beijing não escondem de ninguém sua intenção de fazê-lo.

O desentendimento conceitual entre Google e China sobre o ataque às contas de Gmail de dissidentes políticos chineses no mês passado iniciou a discussão. Depois veio a público a informação de que os hackers tinham como objetivo espionagem militar e industrial às empresas e forças armadas americanas.

Com a situação ainda por ser resolvida, Obama não apenas decidiu comprar a briga, mas também pôs o dedo em importantes feridas chinesas: vendeu armas para Taiwan - cujo território Beijing considera como seu -, retomou a questão da censura pontuada pelo caso Google, e, para terminar, manteve a decisão de receber o Dalai Lama em Washington.

Agora, diante deste cenário, a China vai revidar no Conselho de Segurança. Ou vai cobrar favores políticos altíssimos para aprovar o pacote de sanções, que, a princípio, é apoiado por quatro dos cinco membros: Rússia, França, Estados Unidos e Grã-Bretanha. Mas, como as decisões devem ser unânimes por definição, sem o consentimento da China, nada feito.

Como curiosidade, o Brasil vai votar também. Ou melhor, será contrário às sanções, como tem anunciado publicamente o ministro Celso Amorim. Isto porque o país faz parte do grupo que ocupa os assentos não permanentes do órgão. Turquia, Nigéria e Líbano - também membros do Conselho rotativo - devem seguir o mesmo caminho.

Aliás, a situação do Brasil é interessante. O país não pode votar pelo pacote de sanções porque precisa manter a coerência do discurso.
Desde o início das discussões, o Itamaraty argumenta ser favorável à produção de energia nuclear pelos iranianos, desde que os objetivos sejam pacíficos, como afirma Teerã. A justificativa de Brasília acaba, de certa forma, impedindo uma mudança de posição. Afinal, o Irã jamais virá a público negar os supostos princípios pacíficos de sua empreitada atômica. Ou seja, a não ser que Ahmadinejad consiga produzir uma bomba nuclear ou inicie um ataque regional, o Brasil vai manter sua estratégia de condenar as sanções até o fim.

2 comentários:

Bruno disse...

Henry,

Quanto tempo até o Conselho de Segurança mudar a sua formação?

Essa posição de não ceder às pressões anglo-franco-russo-americanas não deveria estar mais frágil com o modo como Ahmadinejad vai a público dizer que a gente fez um monte de coisa que a gente não fez? Será wue esse não seria o melhor momento para induzir o debate para uma posição de "independentes, sim, inclusive de Ahmadinejad"?

Henry Galsky disse...

Bruno,
acho que mais cedo ou mais tarde o Conselho vai mudar. Até porque, como sempre escrevo, é simplesmente impossível ignorar que o mundo mudou e vai mudar mais ainda. As potências com assento permanente deverão incorporar mais países, inclusive o Brasil, se quiserem transformar o órgão num palco de debates e resoluções democráticas e representativas.