quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Coreia do Norte: autoestima de Kim Jong-il é esquizofrenia nacional

As incongruências entre as expectativas norte-coreanas e as concessões internacionais podem acirrar os conflitos iniciados ontem. Perceber que Pyongyang pretende se estabelecer como potência atômica planetária reforça o que já escrevi. Para analisar os passos do regime de Kim Jong-il é preciso ter em mente mais uma característica humana transportada às ações governamentais: a autoestima está alta demais.

Na foto: manifestante sul-coreano em Seul queima bandeira da Coreia do Norte

Isso poderia não ser ruim necessariamente. O problema é quando ela passa a denunciar uma boa dose de loucura. Loucura do grande líder transformada em insanidade institucional. Como menciona o texto de ontem, o Ocidente enfrenta grandes dificuldades para entender a Coreia do Norte porque todas as explicações levam em consideração certo bom-senso.

Agora, depois do primeiro impacto causado pelos bombardeios, já é possível estabelecer novos paradigmas de análise. Um dos mais interessantes é o seguinte:

"O que eles (os norte-coreanos) desejam há ano é reconhecimento diplomático de seu país pelos EUA. Eles estão frustrados porque entraram nas negociações de seis partes, fizeram testes nucleares e todo o tipo de ameaças, mas ainda não conseguiram levar os americanos à normalizar relações", diz à CNN Wenran Jiang, cientista político da Universidade de Alberta, no Canadá.

Ora, a premissa apresentada mostra total falta de conhecimento do modo de operação de Washington. Algum Estado que minimamente acompanhe a política externa americana desde o início do século 20 saberá que os EUA não costumam aceitar chantagens em troca de relações diplomáticas. Há três administrações presidenciais americanas – a partir de Bill Clinton, em 1994 – existe um consenso de que é preciso interromper o programa nuclear norte-coreano. Houve muitos erros de análise por parte dos EUA, mas em nenhum momento qualquer presidente do país ou autoridade mostrou a mínima disposição de conviver com a possibilidade de uma Coreia do Norte com capacidade atômica.

Em artigo publicado no Wall Street Journal, Michael J. Green e William Tobey, dois ex-oficiais de segurança dos EUA, informam que fontes da Coreia do Norte dizem que o interesse de seu governo é negociar com os americanos um acordo de controle de armamentos. Isso é tão improvável de acontecer que soa ridículo. Se os EUA enfrentam dificuldades para ratificar internamente um tratado de redução de arsenal nuclear com a Rússia (Start, na sigla em inglês), imagina como os congressistas reagiriam a uma proposta deste tipo para fazer algo semelhante com os coreanos? Não faz qualquer sentido.

Washington está em conversações com Moscou porque no século 20 houve algum paralelo entre a capacidade militar dos EUA e da ex-URSS. Definitivamente, o mesmo raciocínio não pode ser aplicado à Coreia do Norte.

Se Pyongyang deposita na aceitação americana de sua autoestima como forma de dar fim a esta nova série de provocações, é melhor que a Coreia do Sul se prepare para novos ataques. Aliás, os EUA já despacharam para a região o porta-aviões George Washington acompanhado de navios militares para conduzir exercícios com os aliados de Seul. Esta primeira resposta oficial deixa claro que as expectativas estão em patamares muito distintos.

2 comentários:

Eduardo Weisz disse...

Oi Henry, achei seu post bem legal mas um pouco ingenuo. Da uma olhada em dois artigos do Ron Ben Yishai no Ynet de hoje. São sobre as motivações da Coréia e achei eles bem interessantes.

Henry Galsky disse...

Eu ando meio ingênuo mesmo, Eduardo. Eu e o Kim Jong-il.