quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Cessar-fogo à francesa: simplicidade ilusória

Conforme antecipado pelo blog no post de ontem, Sarkozy parece mesmo ter se antecipado a Obama na solução do atual conflito entre Israel e o Hamas. Segundo o Haaretz, o gabinete da presidência francesa divulgou um comunicado nesta quarta-feira comemorando a aceitação por israelenses e palestinos de termos gerais que serviriam de base para um cessar-fogo.

“O presidente está satisfeito por Israel e a Autoridade Palestina terem concordado com o plano franco-egípcio apresentado na noite passada em Sharm El-Sheikh pelo presidente do Egito, Hosni Mubarak”, diz a nota distribuída à imprensa.

Israel não confirma ter aceitado o plano, mas, também em nota, agradeceu ao empenho de Sarkozy e Mubarak. Segundo o comunicado israelense, “Israel expressa gratidão a Egito e França pelos esforços para obter uma solução capaz de acabar com o terrorismo em Gaza e o contrabando de armas (de território egípcio para Gaza através dos túneis)”.

Entretanto, numa leitura mais atenta do texto divulgado pela França é possível observar que o Hamas não é mencionado.

Há duas possibilidades que poderiam explicar essa ausência: ao ser citado, Israel poderia interpretar como se o grupo extremista ganhasse legitimidade internacional, sendo colocado, inclusive, em pé de igualdade com o próprio estado israelense; ao mesmo tempo, a Autoridade Palestina, do presidente Mahmoud Abbas, perderia credibilidade interna, uma vez que o Hamas assumiria a posição de interlocutor palestino.

Como na Segunda Guerra do Líbano, em 2006, a simples participação do Hamas num acordo poderia ser capitalizada como vitória – da mesma forma que o Hezbolah foi promovido de governo informal (ou mais poderoso que o formal) no Líbano a ator regional importante. O grupo passou também a contar com o dobro do armamento que detinha antes do conflito com Israel.

Posição do Hamas

A resposta do Hamas ao comunicado francês foi bastante clara. O grupo não concorda com uma trégua permanente com Israel. É bom deixar claro, no entanto, que existe uma divisão estrutural. As áreas política e militar são praticamente independentes, da mesma forma que não necessariamente existe consenso entre as lideranças baseadas em Gaza e na Síria.

Em entrevista à Associated Press, o líder exilado do Hamas, Moussa Abu Marzouk, declarou que não haverá negociações enquanto houver ocupação. O repórter só não perguntou qual o significado preciso deste termo para Marzouk, já que é sempre bom lembrar que o objetivo final e declarado do Hamas não é simplesmente a criação de um Estado palestino, mas a destruição de Israel – como cláusula expressa na carta de fundação do grupo e jamais retirada do texto.

Além disso, Osama Hamdan, representante do Hamas no Líbano, também declarou à rede de notícias Al-Jazira, do Catar, não aceitar a presença de forças internacionais que possivelmente passariam a monitorar as fronteiras de Gaza, a movimentação do Hamas e o lançamento de mísseis sobre território israelense.

“Rejeito a presença de uma força internacional. As tropas que serão enviadas a Gaza para proteger Israel serão tratadas como exército inimigo”, disse.

2 comentários:

Juju disse...

Henry, é muito bom poder ficar por dentro de tudo o que está acontecendo acerca desse conflito entre Israel e o Hamas. Mas o melhor mesmo é poder saber o que está acontendo nos bastidores. Parabéns pelo blog e pelos textos (por sinal, muito bem escritos).

Henry Galsky disse...

Legal, Juliana. Fico feliz que tenha gostado. Muito obrigado e volte sempre!