quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Um primeiro ano animador

Existe um clima de caça às bruxas neste marco do primeiro ano de mandato de Barack Obama. A imprensa, a opinião pública e o próprio Obama estão em fase de crítica e autocrítica do que pode ter dado errado para que os Democratas tenham perdido a maioria absoluta no Senado. Pior do que isso é o simbolismo dessa derrota: a perda da cadeira que Ted Kennedy ocupou de 1962 até sua morte, em agosto passado.

Além de tudo isso, fica a sensação de soco no estômago dos Democratas quando objetivamente se expõe parte do repertório filosófico do vitorioso – e até então pouco conhecido – Scott Brown. Ele promete combater a reforma do sistema de saúde americano – o que considero um retrocesso – e diz acreditar que o afogamento de prisioneiros com o objetivo de extrair informações (método conhecido como "waterboarding", em inglês) não é um tipo de tortura – o que considero um tremendo retrocesso).
Ted Kennedy deve estar se revirando no túmulo. Após um ano de governo Obama, concordo com Dan Kennedy, do britânico Guardian, para quem uma das principais frustrações seja o fato de o presidente não ter conseguido pôr em prática seu projeto de criar uma administração suprapartidária.
Particularmente, considero o projeto de Obama de governar sem oposição um tanto ambicioso. Talvez soe até messiânico, de certa maneira, e a exposição pública da ideia me leva a crer que ele talvez tenha se deixado levar um pouco pelo clima criado durante a campanha eleitoral.
Mas não acho que este primeiro ano tenha sido desastroso. E menos ainda que esta derrota em Massachussets signifique um caminho ladeira abaixo sem volta. Obama tem 50% de aprovação. É 30 pontos menos do que o apresentado no período da posse. Mas é natural. Como mencionou editorial do San Francisco Chronicle, a esperança agora deu de cara com a realidade.
E por pior que seja a realidade, acho que Obama vai no caminho certo. Acima de tudo, acho que ainda está pagando pela imagem criada durante a campanha. Se por um lado o mito em torno de sua figura em boa parte foi fundamental para elegê-lo, não se pode culpar a opinião pública quando ela cobra do presidente soluções de milagreiro. O fato é que um ano é pouco tempo para se avaliar qualquer coisa, muito menos a capacidade de dar conta dos problemas do país mais poderoso do mundo e cujas responsabilidades e ambições são igualmente grandes.
Além do mais, penso que a política externa de Obama está longe de ser uma decepção. Em apenas um ano, os EUA fixaram prazos para a saída do Iraque, valorizaram as instituições multilaterais, tentaram criar uma linha de diálogo direto com o Irã, são os mais atuantes no Haiti, até começam a se adaptar às demandas por compromisso ambiental, dentre vários outros passos importantes. Não acho que seja pouco.

2 comentários:

Bruno Ruivo disse...

Henry,
Só pra acrescentar: na política externa, o Obama também marcou três golaços: pressionou o premier israelense Benjamin Netanyahu contra os assentamentos construídos pelos fanáticos estilo "Kach", que é do lado israelense o obstáculo mais danoso do processo de paz; criticou publicamente a prisão em Guantánamo (embora isso seja mais política interna),e não repetiu a cretinice do ex-presidente Bush Jr. em tratar Hugo Chavez como terrorista--o que é no mínimo um complciador inútil para as relações internacionais que passam pela América Latina.

Henry Galsky disse...

Ótimas observações, Bruno.
Grande abraço!