sexta-feira, 16 de abril de 2010

Lula, o revolucionário

O encontro dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) encerrado em Brasília deixou claro que o grupo veio pra ficar e em pouco tempo vai se tornar uma tremenda dor de cabeça para EUA e União Europeia, representantes tradicionais de um mundo de poder de outrora. O documento final sobre as intenções dos países mostra também que Lula caminha a passos largos para se tornar o líder da composição. Algumas posições têm a sua cara.

São os casos, por exemplo, do pedido de reforma do FMI e do Banco Mundial. Não é de hoje que a posição do governo brasileiro é lutar pela mudança da balança de poder internacional. Para ser ainda mais específico, Lula defendeu seu ponto de vista há pouco mais de uma semana, durante visita da presidente da Libéria a Brasília:

"O Brasil não se transformou em credor do FMI para que as coisas continuassem como antes e exige reformas profundas para que os países em desenvolvimento possam ter uma voz realmente ativa na definição de seu futuro", disse.

Vale recordar que, durante o mandato de Lula, o Brasil deixou a posição histórica de devedor da instituição e adquiriu 10 bilhões de dólares em títulos do organismo.

A postura pragmática da política externa brasileira se aplica também para as relações econômicas. Se o Brasil mudou, as instituições financeiras internacionais têm que mudar também. Ou melhor, a maneira como enxergam o país e os demais membros deste novo mundo.
Aliás, a jogada do Itamaraty é transformar o Brasil em porta-voz deste grupo de emergentes. E este ponto é quase indiscutível. Afinal, nenhum outro Estado possui acesso a quase todos os atores internacionais relevantes como o Brasil.

Por exemplo, ao examinar apenas os membros dos BRICs, é possível ter uma ideia de como seria difícil para qualquer um deles se tornar líder do grupo: o Paquistão é um enorme bolsão populacional e tem importância política indiscutível. Mas a Índia tem péssimas relações com o país. A Rússia é vista com desconfiança pelos Estados do Leste Europeu; a China é alvo do ódio internacional por conta da pirataria que costuma entrar de sola nos mercados internos. O Brasil, no entanto, não tem qualquer problema aparente com nenhum dos atores.

Não tenho nenhuma dúvida de que o grupo vai muito além de pretensões econômicas. Aliás, isso está muito claro, na medida em que as discussões em Brasília entraram também em aspectos políticos, como a abordagem ao Irã, por exemplo. A existência de algo do gênero é uma realização pessoal do próprio Lula, que há 30 anos defende a criação de um eixo independente de poder.

E o presidente brasileiro está a ponto de tornar realidade sua revolução. Sim, ele estudou muito e entendeu que a melhor forma de mudar o sistema é de dentro para fora. Se é preciso ser uma democracia consolidada, apresentar crescimento econômico e conseguir o crescimento do mercado interno para reivindicar posições internacionais, pronto, o país já é tudo isso. E agora Lula pode defender um mundo multipolar onde os novos atores podem participar do jogo. Se isso tudo não é uma revolução, então eu não sei o que pode ser.

3 comentários:

analu disse...

Ótimo texto Henry.
Só mesmo o P.I.G. (partido da Imprensa Golpista) é que faz de tudo pra derrubar essas conquistas.

Não tenho como não concordar com você, quando diz que isso é um revolução.
Chegamos muito longe, sim!
Só não vê quem não quer...

Henry Galsky disse...

Legal, Ana. Fico feliz que tenha gostado. O objetivo de meu texto é justamente mostrar que o Lula conseguiu revolucionar usando os próprios meios nos quais foi estigmatizado durante anos. É claro que tenho inúmeras críticas à política externa brasileira, mas as conquistas são inegáveis.

Rodrigo disse...

Eu queria saber como o provável líder do grupo vai fazer para convencer o BRIC a apoiar reformas econômicas e políticas. Acho difícil a China apoiar alguma reforma do sistema financeiro mundial (8% de crescimento a.a. nos últimos 30 anos e superávits bilionários em BP é sinal de que esse não é um problema chinês). Também acho difícil o Lula convencer chineses e russos a reformar o Conselho de Segurança da ONU, por exemplo, uma das bandeiras sacudidas com mais veemência pelo Itamaraty. Na minha opinião, por enquanto, esse grupo me parece uma grande jogada midiática (vide exemplo do Movimento dos Países Não-Alinhados na Guerra Fria).