quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Baradei permite que Irã não negocie com o Ocidente

O secretário-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o egípcio Mohamed El Baradei, está de saída do cargo. Em seu lugar, ficará o japonês Yukiya Amano, que assumirá o posto em novembro. Baradei deixará de presente ao sucessor a crise nuclear envolvendo o programa de enriquecimento de urânio iraniano. As declarações um tanto irresponsáveis desta semana sobre os objetivos inconclusivos de Teerã não poderiam ter sido divulgadas em pior hora.

Como escrevi no texto de ontem, está chegando ao fim o prazo estabelecido por Obama para aguardar uma resposta do Irã. Se não mudar de ideia e decidir manter o que vem dizendo desde o início do mandato, setembro é a data-limite antes de os EUA aplicarem sanções.

Mas o governo iraniano chegou mesmo a anunciar planos de uma contraproposta à exigência ocidental de interrupção do enriquecimento iraniano. Mas isso foi antes de Baradei ir a público anunciar que não haveria provas sobre os objetivos militares envolvendo o programa nuclear de Ahmadinejad e do líder supremo da revolução, o aiatolá Ali Khamenei.

Simplesmente, Baradei conseguiu reverter a disponibilidade de negociar de um dos mais complicados atores internacionais do momento. Ora, por que o Irã haveria de se sentar à mesa se a partir de agora conta com a complacência da principal agência reguladora internacional?

Não consigo acreditar num erro tão infantil. Ou, simplesmente, na falta de visão sobre as consequências de declarações tão sérias. A esperança que resta agora é a Assembleia-geral da ONU, marcada para o próximo dia 16. É lá que os EUA esperam anunciar a retomada das negociações entre israelenses e palestinos, que Kadafi pretende se pronunciar sobre suas reais intenções e quando, mais uma vez, Ahmadinejad deve usar o palanque e a atenção internacional para divulgar seus planos pacíficos de varrer Israel do mapa e de negar o Holocausto.

Aliás, o analista político iraniano Meir Javedanfar explica que as ambições regionais do governo de Teerã podem em parte explicar sua falta de disposição de dialogar com o ocidente:

“(Ali) Khamenei pode temer que um acordo seria responsável por erodir suas esferas de influência no Oriente Médio. O Irã teria de reduzir o apoio a grupos assimétricos como Hamas e Hezbolah, e também a organizações xiitas no Iraque, bem como a grupos de língua persa no Afeganistão. Com a instabilidade crescente em casa, o Irã precisa mais ser influente em Afeganistão, Líbano e Iraque do que manter boas relações com os EUA. Essas influências dão a Teerã ‘pilares’ de poder”, escreve em artigo publicado no site Real Clear World.

2 comentários:

Alzira disse...

Gostaria que você escrevesse acerca dessa relação do Irã com a Venezuela, o que realmente estaria para acontecer, já que no meu modo de ver o Chávez é um antissemita?

Henry Galsky disse...

Legal, Alzira. Obrigado pela vista, pelo comentário e também pela ótima sugestão. Vou escrever em breve um texto sobre o assunto.
Um abraço,
Henry