
Curiosamente, Kouchner não foi capaz de fazer esta avaliação. Aliás, tenho certeza de que fez, mas preferiu não expor o que Paris pensa de verdade. Não há ingênuos nas relações internacionais. Muito menos o Brasil, país que conseguiu em apenas oito anos passar de figurante a protagonista. Talvez, de certa maneira, haja um tanto de nostalgia da parte do chanceler francês, como alguém que sonha com o velho e acabado mundo onde o norte decidia e o sul era apenas informado. Vale dizer que, após a declaração, ele emendou afirmando que "França e Brasil são países que se amam" (seja lá o que isso signifique).
Apenas para relembrar, Lula e Ahmadinejad se encontram em Teerã em pouco mais de uma semana. Até lá, o Itamaraty optou por manter a política de não se posicionar ao lado de França, Grã-Bretanha e Estados Unidos pela aprovação de mais sanções ao Irã. É uma forma de manter o protagonismo internacional e, quem sabe, aumentar o suspense para eventuais surpresas sobre o resultado das conversas no Irã – essas já, sem dúvida, devidamente combinadas com o regime islâmico.
Acho que a política externa brasileira pode ser traída somente pela crescente radicalização da República Islâmica e de seus aliados. Este não é um cenário improvável, muito pelo contrário. Desde a controversa reeleição de Ahmadinejad, em junho passado, os iranianos têm virado as costas para os parceiros que não comungam de dar um aperto na oposição. O Brasil parece ser a exceção que confirma a regra.
A BBC Brasil tem publicado uma série de reportagens sobre regimes totalitários. Ao abordar o Irã, o veículo revela, por exemplo, que, dos 475 candidatos que se apresentaram para disputar a corrida presidencial, somente quatro foram aprovados pelo Conselho de Guardiões. Para complicar, a Guarda Revolucionária tem sido cada vez mais presente na vida pública e política do país. Já mencionei alguns meses atrás a intenção que a ala militar mais radical do país tem de criar seu próprio canal de "jornalismo".
Para completar, a Turquia – Estado com relacionamento cada vez mais próximo ao Irã – anunciou hoje a aprovação de 26 mudanças constitucionais cujo objetivo parece ser um crescente controle das instituições do país pelo partido AK, de fortes tendências islâmicas. Esta é uma ameaça real ao caráter laico turco, princípio inerente à criação da Turquia moderna, em 1922, por Kemal Ataturk.
Ou seja, é preciso que o Brasil leve todos esses fatores em consideração, mesmo tendo como norte o pragmatismo que vem apresentando com sucesso na condução de sua política externa. Fechar os olhos para a radicalização de parceiros importantes é aceitar o beijo da morte. Até porque, o livre acesso brasileiro no mundo só é possível porque ninguém põe em dúvida seus objetivos. Basta que essa percepção mude e as portas serão fechadas.
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