sexta-feira, 21 de maio de 2010

EUA pedem punições à Coreia do Norte. E Irã sonha em se transformar numa Coreia do Norte

A semana termina com mais um fato perigoso envolvendo as relações entre americanos e países que o antecessor de Obama chamou de "Eixo do Mal". Agora, após a subida de tom entre norte-coreanos e sul-coreanos, Hillary Clinton declarou que Pyongyang poderá enfrentar consequências por ter afundado um navio militar da Coreia do Sul em março passado. O ataque deixou 46 marinheiros mortos e fez a comunidade internacional voltar os olhos novamente para o regime de Kim Jong-il (no centro da foto).

O governo americano está certo ao afirmar que o ataque deliberado deve ser punido. Mas a pergunta é: que punições seriam capazes de amedrontar os norte-coreanos? Vale lembrar que o país abandonou as negociações sobre seu programa nuclear em maio de 2009. Um ano depois, o que mudou? Absolutamente nada. A Coreia do Norte não parece estar nem aí. Nenhum dos países ocidentais está disposto a dar o primeiro passo na direção da única e contundente punição capaz de assustar realmente Pyongyang. Como os norte-coreanos sabem disso, permanecem com o mesmo comportamento de sempre.
Interessante notar que a abordagem americana acontece na mesma semana que Washington anuncia a intenção de finalmente aprovar as sanções ao Irã. Como escrevi algumas vezes, não é este pacote de medidas punitivas que será capaz de enfraquecer ou interromper o programa nuclear iraniano. Muito pelo contrário. Sempre sustentei a tese de que o objetivo de Khamenei e Ahmadinejad é fechar mais ainda o regime. Nada melhor do que encontrar um inimigo externo como desculpa para medidas ainda mais restritivas à imprensa e à oposição. Basta ver o tratamento dispensado aos cineastas iranianos. Nada é por acaso.
Ou EUA estão dando um presente para os aiatolás. A oposição interna iraniana vai ficar ainda mais enfraquecida. Com o discurso oficial de que há um complô mundial contra o país - discurso apoiado pelas sanções - , as vozes dissonantes tendem a diminuir. O programa nuclear vai se tornar motivo de orgulho nacional; apoiá-lo vai ser quase um exercício de cidadania. E aí o Irã vai estar relegado ao mesmo destino da Coreia do Norte. Mas localizado numa das regiões mais instáveis do planeta e às vésperas de alcançar autonomia atômica.
Ao assistir ao choque frontal de Brasil e Turquia com as demais potências mundiais, Ahmadinejad alcança o melhor dos mundos: tem a desculpa que queria para demonizar o ocidente e calar a oposição, ao mesmo tempo em que conta com ao menos dois aliados para furar as sanções que estão por vir. Não por acaso comentei que, além do acordo sobre a troca de urânio, o governo brasileiro anunciou uma linha de crédito para incentivar exportações de alimentos brasileiros e também um tratado para o desenvolvimento da indústria petrolífera iraniana.

2 comentários:

Guilherme Scalzilli disse...

Os EUA sabotam a paz

O acordo com o Irã é uma vitória histórica da diplomacia brasileira, quaisquer que sejam seus desdobramentos. A mídia oposicionista sempre repetirá os jargões colonizados de sua antiga revolta contra o destaque internacional de Lula.
O governo de Barack Obama atua nos bastidores para destruir essa conquista. É uma questão de prestígio pessoal para Obama e Hillary Clinton, que foram desafiados pela teimosia de Lula. Mas trata-se também de uma necessidade estratégica: num planeta multipolarizado e estável, com vários focos de influência, Washington perde poder. E a arrogante independência do brasileiro não pode se transformar num exemplo para que outros líderes regionais dispensem a tutela da Casa Branca.
Em outras palavras, a paz não interessa aos EUA. E, convenhamos, ninguém leva a sério os discursos pacifistas do maior agressor militar do planeta. Será fácil para os EUA bloquear a iniciativa brasileira, utilizando a submissão das potências aliadas na ONU ou atiçando os muitos radicais de variadas bandeiras, ávidos por um punhado de dólares. Mas alguma coisa rachou na hegemonia estadunidense, que já não era lá essas coisas.

Henry Galsky disse...

Olá, Guilherme. Obrigado pelo comentário. O texto de segunda vai comentar algumas repercussões sobre o acordo e também possíveis consequências para Brasil e Turquia.
Grande abraço.