segunda-feira, 17 de maio de 2010

Brasil, Irã e Turquia aplicam ippon na comunidade internacional

Alguém realmente acreditava que Lula iria percorrer meio mundo para sair sem um acordo com o Irã? Não acredito em tanta ingenuidade. Muito possivelmente, a aceitação da proposta de Brasil e Turquia para o impasse envolvendo o enriquecimento de urânio iraniano já vinha sendo costurada há meses. A primeira rodada de negociações pode ter acontecido em novembro do ano passado, quando Mahmoud Ahmadinejad esteve em Brasília.

Agora, o planeta é comunicado de que Lula e Recep Tayyip Erdogan conseguiram que Ahmadinejad concordasse com o envio de urânio de baixo enriquecimento para a Turquia. Não é por acaso que o acordo foi selado justamente com dois países emergentes membros não-permanentes do Conselho de Segurança da ONU. O trio está fechado e disposto a obter vantagens para todos. O anúncio de hoje é uma prova da política ganha-ganha travada entre Brasil e Irã. Como sustento há bastante tempo, a simbiose alimenta a vitória dos dois a partir da percepção de que as vantagens obtidas podem ser costuradas por eles mesmos desde que seus passos sejam satisfatórios às aspirações da comunidade internacional.

Explico: a ansiedade demonstrada com o programa nuclear iraniano só seria amenizada a partir de um acordo deste tipo. Se o Irã aceitasse a proposta dos países desenvolvidos - a mesma feita por Brasil e Turquia -, o mérito seria dos mesmos atores de sempre. E, além do mais, Teerã não obteria qualquer vantagem com isso. Mas, ao fechar com Brasil e Turquia, Ahmadinejad se alia a dois parceiros que precisam de ganhos como esses, que só o Irã pode proporcionar. Além do mais, ao oferecer uma vitória inestimável ao Brasil, Ahmadinejad garante parceiros que poderão sustentá-lo no caso de as potências ocidentais insistirem numa nova rodada de sanções - o que, segundo as primeiras repercussões, deverá acontecer.

Não por acaso também, além do acordo envolvendo o urânio iraniano, o Brasil anunciou duas medidas importantíssimas para a sobrevivência do Irã em caso de novas sanções: uma linha de crédito no valor de 1 bilhão de euros para empresas brasileiras exportarem alimentos para a república islâmica; e a participação de empresas brasileiras na modernização da indústria petrolífera iraniana. Vale lembrar que o Irã não possui capacidade de refino de petróleo. E muitos dos que defendem um boicote à economia iraniana argumentam que este é um dos pontos fracos do país. Agora, o Irã consegue, graças ao Brasil, cercar algumas de suas fragilidades mais fundamentais: combustível e alimentos.

Do ponto de vista do Brasil, os ganhos são facilmente percebidos. Como já é conhecido, o objetivo do Itamaraty é credenciar o país a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. Ao se envolver com sucesso no impasse ocidental com o Irã, Brasília não apenas exerce papel de protagonista num dos principais focos de perturbação mundial, como imobiliza os atores que defendem a manutenção do status-quo internacional: se a atuação brasileira não é reconhecida pelas Nações Unidas, logo a instituição precisa de reformas urgentes sob o risco de não representar a realidade das novas relações internacionais.

Sem a menor dúvida, o Irã também vai aproveitar para ganhar tempo. Até porque a logística para pôr o acordo em prática é complicadíssima. Além do mais, a Turquia não tem capacidade tecnológica para enriquecer o urânio que os iranianos enviarão. Ou seja, será preciso encontrar outro país para novas negociações. O anúncio de hoje também está longe de resolver o impasse nuclear. Mas é inegável que Brasil e Turquia conseguiram mais avanços que as potências ocidentais. Para Lula, é uma vitória ainda maior. Em seu último ano de mandato e a cinco meses das eleições presidenciais, ele conseguiu o que mais queria: transformar o sucesso com os iranianos num último ato repleto de simbolismo da nova política externa que conseguiu implantar no Brasil.

5 comentários:

analu disse...

Henry, essa foi uma jogada de mestre, né?

Ontem vendo o video da Globonews, eles só davam crédito para a Turquia... ridículo.

E hoje na Globo.com a matéia sobre o assunto, se baseia na opinião e relato de um funcionário iraniano... É MUITA cara de pau.

Depois lê aqui: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2010/05/ira-seguira-enriquecendo-uranio-20-diz-chefe-de-agencia-nuclear.html

Henry Galsky disse...

Eu li essa matéria, Ana. Não entendo como ninguém consegue enxergar o que está acontecendo.

analu disse...

Bom, com certeza os 2 lados levam vantagem... mas não acho (como a maioria dos lugares que estou lendo) que o Irã está "manipulando" o Brasil e a Turquia... Nada a ver né?

Bruno Postiga disse...

é verdade caros. mas eu entendo como boa parte das pessoas não enxerga os verdadeiros motivos do interesse do Brasil. Desde o ano passado o Governo Lula vinha desenhando acordos bilaterias com o Irã no intuito de estreitar suas relações comerciais. Na área de energia, principalmente o petróleo o governo acertos detalhes de plano para levar a petrobras a entrar no Irã. É óbvio q a "Paz mundial" não é a razão maior dessa generosidade do presidente Lula, mas pouco se fala do q realmente há por trás disso. Em ano de eleição é pouco provável que os principais órgãos de imprensa do nosso País discutam e deem muita atenção ao "feito" do Lula. Cabe a nós, bravos e relutantes jornalistas tentam levar as reais razões adiante.. abs

analu disse...

É exatamente isso, Bruno... mas como é difícil né?! A grande mídia vende as notícias com "verdade absoluta" e nós somos obrigados aceitar passivamente...

Vamos ao ataque!!