
Preciso deixar claro, no entanto, que considero muito interessante a riqueza de detalhes fornecidos nesses dias. Não se pode simplesmente ignorar os relatos, pelo contrário. Acho fundamental enxergar o que de fato tem valor real nesses quase 92 mil documentos. O fundador do think-tank americano Stratfor, George Friedman, tem uma visão clara sobre este aspecto.
"O Talibã é uma força mais sofisticada do que se acreditava. Um exemplo disso é a alegação de que os radicais têm usado sistemas de defesa aérea pessoais portáteis (MANPADS, sigla em inglês) contra aeronaves americanas. Isso é importante de alguma maneiras: primeiro, indica que o grupo dispõe de tecnologias similares às usadas contra os soviéticos; segundo, levanta o questionamento sobre onde o Talibã tem conseguido artefatos deste tipo - certamente, não são seus membros que fabricam esses MANPADS", escreve.
Sobre o papel ambíguo exercido pelo Paquistão - mencionado no texto de ontem - é possível buscar no passado uma explicação. Não se trata de justificar, mas entender a dupla fidelidade do governo de Islamab.
O Paquistão ajudou o Talibã a chegar ao poder no Afeganistão durante os anos 1990. Em 2001, os dirigentes paquistaneses teriam encerrado o apoio formal ao grupo diante da pressão exercida pelos EUA. Como se vê, entretanto, os contatos entre as partes nunca terminaram totalmente. E as razões são muito óbvias: após a saída das tropas da coalizão ocidental do Afeganistão - até o início desta semana agendada para daqui a menos de quatro anos -, quem vai voltar a atuar no país?
Sem o impedimento representado pelos soldados americanos e da Otan, é muito possível que os talibãs voltem a agir como força política e militar relevante. E não há nada o que se possa fazer quanto a isso. Vale sempre lembrar Washington despeja nesses últimos dez anos um caminhão de dinheiro nesta luta e, mesmo assim, não consegue erradicar a presença do grupo radical.
"Levando em consideração que o Paquistão não imagina que o Talibã será derrotado e que (Islamabad) não está interessada num completo caos no Afeganistão, é claro que eles (os paquistaneses) vão manter relações de proximidade e apoio ao Talibã. Considerando que o poder americano é o único trunfo do Paquistão contra a Índia, os paquistaneses não vão tornar pública esta prática (o relacionamento com o grupo radical). Portanto, os EUA acabaram por criar uma situação onde a única política possível para o Paquistão é esta dupla fidelidade. Ela consiste na manifestação pública de oposição ao Talibã, mas também em apoio dissimulado a este mesmo Talibã", diz Friedman.
Este parágrafo resume bem a impossibilidade de vitória da coalizão. Pelo menos da maneira como o ocidente costuma aplicar este termo.
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