sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O Hamas e os Estados Unidos

A edição eletrônica do jornal Haaretz traz uma notícia exclusiva bastante interessante: em 2006, o Hamas teria mandado uma carta  aos Estados Unidos acenando com a possibilidade de negociações diretas de paz e um cessar-fogo com Israel. 

A carta foi entregue ao diário por um professor americano que se encontrou com o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, meses depois das eleições que levaram o grupo ao poder. A mensagem foi repassada pelo acadêmico a autoridades do governo e ela teria chegado ao conhecimento do presidente Bush. 

Entretanto, nunca houve resposta à oferta. A carta foi escrita durante o boicote dos Estados Unidos e União Européia ao governo do Hamas em Gaza - que ainda se mantém devido à recusa do grupo em abrir mão de realizar atentados terroristas e lançar foguetes contra Israel.

O conteúdo da mensagem é bastante genérico, mas mostra uma mínima disposição à negociação - um avanço, levando-se em consideração que os métodos utilizados pelo Hamas apenas reafirmam a posição de sua carta de criação: destruir o Estado de Israel e, sobre seus escombros, fundar uma Palestina islâmica mais ou menos nos moldes do atual Irã.  

O texto ditado em árabe por Haniyeh e traduzido para o inglês diz o seguinte: "somos um governo eleito num processo democrático. Estamos tão preocupados com a paz na região, que não nos importamos de termos um Estado palestino nas fronteiras de 1967. Oferecemos uma trégua por muitos anos. Conclamamos os EUA a negociarem diretamente com o governo eleito. O prolongamento desta situação (o boicote) vai encorajar o caos e a violência em toda a região". 

Seguramente, o Hamas não estava tão preocupado assim com a paz, muito menos com a estabilidade do Oriente Médio. E é importante notar que o texto não fala de um reconhecimento do Estado de Israel, apenas menciona uma trégua por "muitos anos". Mas esse teria sido o momento para o início de negociações. 

O Hamas, sem dúvida, não é o parceiro ideal para a paz. Mas Arafat, antes dos Acordos de Oslo, tampouco era. Assinar um tratado, estabelecer o mínimo de relacionamento e exigir o cumprimento do combinado é a forma pragmática e eficiente de, ao menos, desarmar o discurso e as ações de um grupo como o Hamas. 

Hoje o governo Bush está de saída e admite que não haverá mais tempo para a costura de um acordo mais amplo. A secretária de Estado Condolezza Rice esteve na região durante esses anos entre 19 e 22 vezes (há uma divergência entre a quantidade de visitas; 19, segundo jornalistas; 22, de acordo com a embaixada americana em Israel). Não conseguiu nada além de promessas vazias. 

E agora a situação está em suspenso por uma série de fatores: a fragilidade do cessar-fogo entre Israel e o próprio Hamas, a transição do governo nos Estados Unidos, as eleições em Israel, e o fim do mandato do presidente Mahmoud Abbas à frente da Autoridade Palestina. 

Notícia do jornal árabe publicado em Londres Al-Hayat informa que Obama teria mantido diálogos com membros do Hamas durante a campanha eleitoral. Segundo Ahmed Yusuf, conselheiro do líder do grupo terrorista, houve contatos entre as partes também após a vitória do democrata nas eleições americanas. 

Durante a corrida presidencial, Obama deixou claro que só aceitaria negociar com o Hamas se o grupo renunciasse ao terrorismo, reconhecesse o direito de existência de Israel e respeitasse acordos assinados no passado. 

2 comentários:

fábio balassiano disse...

bom texto, henry! vamos ver se o obama cumpre a palavra, e se a imprensa desce um pouco do palanque e passe a cobrir o seu mandato com menos "confete"!
eu n acredito no hamas. em nd.
abs, fábio

Henry Galsky disse...

Legal, Fábio. Obrigado pelo comentário e fico feliz que esteja gostando do blog. Acho que a questão não é acreditar no Hamas, mas sim levá-los à mesa de negociações, fazer com que assinem compromissos etc. Legitimá-los "à força" é um dos métodos de tornar acordos possíveis na prática, entende?
Grande abraço!